A ignorância é o abismo da fé, porque a fé é um acto da inteligência.
Passagens de Camilo Castelo Branco
285 resultadosNeste mundo ha só duas cousas que me afligem: são os maus charutos, e madrugadas antes da uma hora da tarde. No mais entendo que este globo é o melhor de todos para quem não tiver calos e reumatismo.
Amigos verdadeiros são os que nos acodem inopinados com valedora mão nas tormentas desfeitas.
Eu sou escravo do coração: é este que me fala em nome de um anjo, e me promete uma felicidade, que nem eu sei concebê-la… é um sonho o teu amor.
Todo o homem, por criminoso que seja em demasia, tem o momento da consciência, e o da contrição.
Este Amor Infinito e Imaculado
Querida, o teu viver era um letargo,
Nenhuma aspiração te atormentava;
Afeita já do jugo ao duro cargo,
Teu peito nem sequer desafogava.
Fui eu que te apontei um mundo largo
De novas sensações; teu peito ansiava
Ouvindo-me contar entre caricias,
Do livre e ardente amor tantas delicias!Não te mentia, não. Sentiste-o, filha,
Esse amor infinito e imaculado,
Estrela maga que incessante brilha
Da alma pura ao casto amor sagrado;
Afecto nobre que jamais partilha
O coracão de vícios ulcerado.
Não sentes, nem recordas, já sequer?
Quem deste amor te despenhou, mulher ?Eu não! Se muitos crimes me desluzem,
Se pôde transviar-me o seu encanto,
Ao menos uma só não me recusem,
Uma virtude só: amar-te tanto!
Embora injúrias contra mim se cruzem,
Cuspindo insultos neste amor tão santo,
Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade
O opróbrio aviltador da sociedade.
O amor indómito, fremente e tempestuoso é um naufrágio que se ama, uma dor com que se brinca, e, enfim, um delírio honroso em qualquer criatura.
A felicidade, à custa de lágrimas alheias, é uma traição aos nossos gozos: é um licor saboroso em taça de prata, com fezes no fundo, fezes que afinal somos obrigados a tragar.
A infância é como a água que desce da bica, e nunca mais sobe.
Pode-se morrer mais do que uma vez. A sepultura é que é só uma para cada homem.
O poeta desmente as leis fisiológicas, vivendo do princípio vital de uma única entranha: o coração.
Não há desgraça absoluta debaixo do céu. Todos somos infelizes, quando olhamos a medalha por uma só das faces.
As lágrimas são o desafogo das dores que vivem no cérebro normal.
Entre namorar e amar, está o reflectir.
As almas infelizes envelhecem cedo.
A sociedade, a família e o homem expiam incessantemente a culpa do homem, da família e da sociedade.
Um casamento entre duas pessoas, habituadas a não proverem com o trabalho às suas precisões, é uma desgraça.
A mulher mais digna de nós é aquela que melhor serve as nossas propensões, quer viva na cripta subterrânea das vestais, quer se ostente de seios nús no estrado do alcouce.
A Decadência do Coração nos Tempos Modernos
Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do coração é curta, o amor vem temporão, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da indústria. A sociedade, aparelhada em oficina, não dá por ele, se o não vê a labutar e mourejar no veio da riqueza. Títulos, glória, homenagens, regalos, as feições todas da festejada máscara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, só pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O coração é víscera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as válvulas e exercitar o cérebro, onde demora a bossa do cálculo, da empresa, da sordícia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao estômago, o qual é, sem debate, a víscera por excelência, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas.
Há mulheres que parecem ensoberbecer-se com o seu próprio infortúnio. A docilidade, a humilhação sem desdouro, poderá, nos casos de muitas, revirar a pouco e pouco a sorte.