Como se Morre de Velhice
Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)
Passagens de Cecília Meireles
133 resultadosOs que sabem o que querem e querem o que têm! Sonhar um sonho a dois, e nunca desistir da busca de ser feliz, é para poucos!
Ainda que sendo tarde e em vão,
perguntarei por que motivo
tudo quando eu quis de mais vivo
tinha por cima escrito: Não
Nunca tive os olhos tão claros e o sorriso em tanta loucura. Sinto-me toda igual às árvores: solitária, perfeita e pura.
Epitáfio
Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vã desintegrados,
em pequenas flores tornados.Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!E não sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mão dada
pelas praias da madrugada.
Pergunto-te Onde se Acha a Minha Vida
Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.
E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.
De Longe Te Hei-de Amar
De longe te hei-de amar
– da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.
O saguim é um animalzinho assaz bonito:
é mesmo o mais bonito de todos, pela selva;
anda nas árvores, esconde-se, espia, foge depressa
e há deles, na terra viçosa, número infinito.
Se volto sobre o meu passo, é já distância perdida. Meu coração, coisa de aço, começa a achar um cansaço esta procura de espaço para o desenho da vida.
Somos um ou dois? As vezes nenhum. E em seguida tantos!
Retrato de Mulher Triste
Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.
Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser.
Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua… Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.
Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.
De Que São Feitos os Dias?
De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…
Não seja o de hoje. Não suspires por ontens…. Não queiras ser o de amanhã. Faze-te sem limites no tempo.
Nas Águas Vosso Amor Ponde
A palavra que te disse,
talvez por ser tão pequena,
em tais desprezos perdeu-se
que não deixou nem pena.Murmurei-a a uma cisterna
de turvas águas antigas
e foi-se de cova em cova
em múltiplas cantigas.Amadores deste mundo,
nas águas vosso amor ponde;
que elas vos darão resposta,
quando ninguém responde.
Romantismo
Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!Quem tivesse um amor – longe, certo e impossível –
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado…Quem tivesse um amor, sem dúvida e sem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria…
Ah! quem tivesse… (Mas, quem teve? quem teria?)
… E por perder-me é que vão me lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim.
E é nisto que se resume o sofrimento: cai a flor, ? e deixa o perfume no vento!