Passagens sobre Clarões

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Camões II

Quando, transposta a lĂşgubre morada
Dos castigos, ascende o florentino
A regiĂŁo onde o clarĂŁo divino
Enche de intensa luz a alma nublada,

A saudosa Beatriz, a antiga amada,
A mĂŁo lhe estende e guia o peregrino,
E aquele olhar etéreo e cristalino
Rompe agora da pálpebra sagrada.

Tu que também o Purgatório andaste
Tu que rompeste os cĂ­rculos do Inferno,
Camões, se o teu amor fugir deixaste,

Ora o tens. como um guia alto e superno
Que a Natércia da vida que choraste
Chama-se GlĂłria e tem o amor eterno.

Os últimos clarões da minha razão mostraram-me que a fortuna e a desgraça são eventualidades que não tem sanção no céu nem no inferno. Todas as religiões são mentirosas, todas as misérias vêm do acaso, e não ha juiz que abençoe ou condene, fora do homem. Tirai-lhe a consciência, e o homem dará um abraço nas feras, e irá com elas devorar o animal seu semelhante.

Hino da ManhĂŁ

Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,
E enche de força o coração triumphante
Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim pões-me tu tristeza immensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irmĂŁ do desespero,
A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro nĂŁo palpita,
Nem ave canta, nem susurra o vento,
E adormece o proprio pensamento,
Do que a luz matinal… a luz bemdita!

Porque a noite Ă© a imagem do NĂŁo-Ser,
Imagem do repouso inalteravel
E do esquecimento inviolavel,
Que anceia o mundo, farto de soffrer…

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem está já morto…

E, interrogando intrepido o Destino,
Como reu o renega e o condemna,
E virando-se, fita em paz serena
O vacuo augusto, placido e divino…

Porque a noite Ă© a imagem da Verdade,
Que está além das cousas transitorias.
Das paixões e das formas ilusorias,

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Beleza Morta

De leve, louro e enlanguescido helianto
Tens a flĂłrea dolĂŞncia contristada…
Há no teu riso amargo um certo encanto
De antiga formosura destronada.

No corpo, de um letárgico quebranto,
Corpo de essĂŞncia fina, delicada,
Sente-se ainda o harmonioso canto
Da carne virginal, clara e rosada.

Sente-se o canto errante, as harmonias
Quase apagadas, vagas, fugidias
E uns restos de clarĂŁo de Estrela acesa…

Como que ainda os derradeiros haustos
De opulĂŞncias, de pompas e de faustos,
As relĂ­quias saudosas da beleza.

Supremo Desejo

Eternas, imortais origens vivas
Da Luz, do Aroma, segredantes vozes
Do mar e luares de contemplativas,
Vagas visões volĂşpicas, velozes…

Aladas alegrias sugestivas
De asa radiante e branca de albornozes,
Tribos gloriosas, fulgidas, altivas,
De condores e de águias e albatrozes…

Espiritualizai nos Astros louros,
Do sol entre os clarões imorredouros
Toda esta dor que na minh’alma clama…

Quero vĂŞ-la subir, ficar cantando
Na chama das Estrelas, dardejando
Nas luminosas sensações da chama.

8 de Setembro

Hoje, este dia foi uma taça cheia,
hoje, este dia foi a onda imensa,
hoje, foi a terra inteira.

Hoje, o mar tempestuoso
ergueu-nos num beijo
tĂŁo alto que estremecemos
ao clarão de um relâmpago
e, unidos, descemos
para mergulharmos enlaçados.

Hoje os nossos corpos dilataram-se,
cresceram até ao extremo do mundo
e rolaram fundidos
numa sĂł gota
de cera ou meteoro.

Entre mim e ti abriu-se uma nova porta
e alguém, sem rosto ainda,
esperava-nos ali.

Da Minha Idéia do Mundo

Da minha idéia do mundo
CaĂ­…
Vácuo além do profundo,
Sem ter Eu nem Ali…

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser…
Escada absoluta sem degraus…
VisĂŁo que se nĂŁo pode ver…

AlĂ©m-Deus! AlĂ©m-Deus! Negra calma…
ClarĂŁo do Desconhecido…
Tudo tem outro sentido, Ăł alma,
Mesmo o ter-um-sentido…

Versos de Orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que Ă© o mundo, Ăł meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pĂŁo bendito,

Meus ĂŞxtases, meus sonhos, meus cansaços…
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!…

Entre Sombras

Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
— A noite desce, desfolhando as rosas —
Vem ter commigo, ás horas duvidosas,
Uma visĂŁo, com azas de setim…

Pousa de leve a delicada mĂŁo
— Rescende amena a noite socegada —
Pousa a mĂŁo compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração…

E diz-me essa visĂŁo compadecida
— Ha suspiros no espaço vaporoso —
Diz-me: Porque Ă© que choras silencioso?
Porque Ă© tĂŁo erma e triste a tua vida?

Vem commigo! Embalado nos meus braços
— Na noite funda ha um silencio santo —
N’um sonho feito sĂł de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços…

Porque eu habito a regiĂŁo distante
— A noite exhala uma doçura infinda —
Onde ainda se crĂŞ e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante…

Habito ali, e tu virás commigo
— Palpita a noite n’um clarĂŁo que offusca —
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo…

Assim me fala essa visĂŁo nocturna
— No vago espaço ha vozes dolorosas —
SĂŁo as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna…

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Inconstância

Procurei o amor que me mentiu.
Pedi Ă  Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarĂŁo nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir tambĂ©m… nem eu sei quando…

Ă€ Janela De Garcia De Resende

Janela antiga sobre a rua plana…
Ilumina-a o luar com seu clarĂŁo…
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no poĂ©tico balcĂŁo…

Dantes! Da minha glĂłria altiva e ufana,
Talvez…Quem sabe?…Tonto de ilusĂŁo,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcĂŁo…

MĂ­stica dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado…

Bandeiras! Pajens! O pendĂŁo real!
E na tua mĂŁo, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!…

Requiescat

Grande, grande Ilusão morta no espaço,
Perdida nos abismos da memĂłria,
Dorme tranqĂĽila no esplendor da glĂłria,
Longe das amarguras do cansaço…

IlusĂŁo, Flor do sol, do morno e lasso
Sonho da noite tropical e flĂłrea,
Quando as visões da névoa transitória
Penetram na alma, num lascivo abraço…

Ă“ IlusĂŁo! Estranha caravana
de águias, soberbas, de cabeça ufana,
De asas abertas no clarĂŁo do Oriente.

Não me persiga o teu mistério enorme!
Pelas saudades que me aterram, dorme,
Dorme nos astros infinitamente…

Aleluia! Aleluia!

Dentre um cortejo de harpas e alaĂşdes
Ă“ Arcanjo sereno, Arcanjo nĂ­veo,
Baixas-te Ă  terra, ao mundanal convĂ­vio…
Pois que a terra te ajude, e tu me ajudes.

Que tu me alentes nas batalhas rudes,
Que me tragas a flor de um doce alĂ­vio
Aos báratros, às brenhas, ao declívio
Deste caminho de ânsias e ataĂşdes…

Já que desceste das regiões celestes,
Nesse clarĂŁo flamĂ­vomo das vestes,
Através dos troféus da Eternidade

Traz-me a Luz, traz-me a Paz, traz-me a Esperança
Para a minh’alma que de angĂşstias cansa,
Errando pelos claustros da Saudade!

O Amor IndĂłmito

Há casos de alucinação, extasis incendiados de fantasia, em que o homem subjuga ao seu transporte as férreas considerações sociais, fazendo-as reflexivas de todo o brilho da sua alegria. É por isso que as grandes paixões estão em divórcio com o juízo prudencial. No mar da vida o fanal do amor é o que mais resplende. Cegam-se os olhos e entendimento ao que mais ansiosamente o fita. Com a mente fixa nesse clarão esperançoso, que tão frouxas résteas de luz nos dá em paga de tremendos trabalhos, transcuram-se vagas e baixios que nos assaltam o pobre baixel. O amor indómito, fremente e tempestuoso é um naufrágio que se ama, uma dor com que se brinca, e, enfim, um delírio honroso em qualquer criatura.

Cantigas

Quando vejo a minha amada
Parece que o Sol nasceu;
Cantai, cantai alvorada
Ó avezinhas do céu.

Nessas águas do Mondego
Se pode a gente mirar,
Elas procuram sossego…
E vĂŁo caminho do mar.

A rosa que tu me deste
Peguei-lhe, mudou de cor;
Tornou-se de azul-celeste
Como o céu do nosso amor.

NĂŁo me fales da janela,
Que te não ouço da rua;
Fala-me de alguma estrela,
Que te vou ouvir da Lua.

Dizes que a letra nĂŁo deve
Ser nunca miudinha;
Mas grada ou miĂşda escreve,
Que o coração adivinha.

NĂŁo digas que me nĂŁo amas
A ver se tenho ciĂşme;
Os laços do amor são chamas,
E nĂŁo se brinca com lume.

A virgem dos meus amores
Sobressai entre as mais belas:
É como a rosa entre flores,
É como o Sol entre estrelas.

Eu zombo de sol e chuva,
Noite e dia, terra e mar;
Ais de uma pobre viĂşva,
Se os ouço, dá-me em chorar.

A sombra da nuvem passa
depressa pela seara;

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AusĂŞncia

Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
– pastores das ascĂ©ticas planuras –
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
Ă€ nuvem erradia,
Ă€s penhas duras:
– Que Ă© dele, o eterno Ausente,
– Cantor da nossa melancolia?

Nas tardes duma luz de Ă­ntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu prĂłprio me interrogo:
– Onde estou? Onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

– Ventos, que novas me trazeis das rosas,
Que acendiam clarões no meu jardim?

– Pastores, que Ă© do vosso companheiro?

– Saudades minhas, que sabeis de mim?

Poema Final

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
_ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
TĂŁo graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo nĂŁo sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos nĂŁo sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. NĂŁo suspireis. NĂŁo respireis.

Eu passava muito bem sem Deus e, se utilizava o seu nome, era para designar um vazio que tinha, a meus olhos, o clarĂŁo da plenitude.

Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mĂŁos mignonnes e aquecĂŞ-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos noturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabĂŁo das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos rĂłseos paraĂ­sos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cĂ­taras estranhas,

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VisĂŁo

Noiva de Satanás, Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Sonâmbula do Além, do Indefinido
Das profundas paixões, Dor infinita.

Astro sombrio, luz amarga e aflita,
Das Ilusões tantálico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sĂŞ bendita!

Seja bendito esse clarĂŁo eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade…

Sejam benditas, imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!