Escuta, não dou lições nem esmolas, quando eu me dou, é por inteiro
Passagens sobre Esmola
66 resultadosA esmola do desventurado Ă© a melhor aceite por Deus.
A esmola tanto avilta quem a dá como quem a recebe.
Bondade e Sabedoria devem ser Inocentes
Quando a bondade se mostra abertamente já nĂŁo Ă© bondade, embora possa ainda ser Ăştil como caridade organizada ou como acto de solidariedade. DaĂ: «NĂŁo dĂŞs as tuas esmolas diante dos homens, para seres visto por eles». A bondade sĂł pode existir quando nĂŁo Ă© percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no acto de fazer uma boa obra deixa de ser bom; será, no máximo, um membro Ăştil da sociedade ou zeloso membro de uma igreja. DaĂ: «Que a tua mĂŁo esquerda nĂŁo saiba o que faz a tua mĂŁo direita.»
(…) O amor à sabedoria e o amor à bondade, que se resolvem nas actividades de filosofar e de praticar boas acções, têm em comum o facto de que cessam imediatamente – cancelam-se, por assim dizer – sempre que se presume que o homem pode ser sábio ou ser bom. Sempre houve tentativas de dar vida ao que jamais pode sobreviver ao momento fugaz do próprio acto, e todas elas levaram ao absurdo.
Toda a virtude que entre os homens se manifesta, logo que lhes arranca uma admiração, Ă© mais cheia de perigos que um aroma muito sensual, ou um canto muito amoroso. A mais humilde esmola, a chaga de um mendigo que se lava, uma simples consolação, desde que se mencionem, sĂŁo perigos terrĂveis para a alma, porque a persuadem da sua caridade e excelĂŞncia. Pelo bem que semeamos nos outros, sĂł colhemos dentro em nĂłs orgulho – e cada obra da nossa caridade desmancha a obra da nossa humildade.
Obrigada!
A Nininha Andrade
… E tu rezas por mim! Como agradeço
Essa esmola gentil de teu carinho…
Como as torturas de minh’alma esqueço
Nessa tua oração, floco de arminho!Eu te bendigo, ó santa que estremeço,
Alma tĂŁo pura como a flor do linho.
É tua prece à mágoa que padeço
Asa de pomba defendendo um ninho!Reza, criança! Junta as mãos nevadas
E cerra as nĂveas pálpebras amadas
Sobre os teus olhos como um lindo véu…Depois, nas asas de uma prece ardente,
Deixa cantar minh’alma docemente,
Deixa subir meu coração ao céu!
ReminiscĂŞncia
Um dia a vi, nas lamas da miséria,
Como entre pântanos um branco lĂrio,
Velada a fronte em palidez funérea,
O frio vĂ©u das noivas do martĂrio!Pedia esmola — pequena e sĂ©ria —
Os seios, pastos de eternal delĂrio,
Cobertos eram de uma cor cinérea —
Seus olhos tinham o brilhar do cĂrio.Tempos depois n’um carro — audaz, brilhante,
Uma mulher eu vi — febril, galante…
Lancei-lhe o olhar e… maldição! tremi…Ria-se — cĂnica, servil… faceira?
O carro n’uma nuvem de poeira
Se arremessou… e eu nunca mais a vi!
Por dar uma esmola nĂŁo mingua a bolsa.
Quando a esmola Ă© grande, o pobre desconfia.
A esmola Ă© a prece por excelĂŞncia.
Em matéria de esmola, é preciso fechar a boca e abrir o coração.
Caminho Recompensador
Aquele que se tenha erguido acima do cesto das esmolas e não se tenha contentado em viver ociosamente das sobras de opiniões suplicadas, que pôs a funcionar os seus próprios pensamentos para encontrar e seguir a verdade, não deixará de sentir a satisfação do caçador; cada momento da sua busca recompensará os seus dissabores com algum prazer; e terá razões para pensar que o seu tempo não foi mal gasto, mesmo quando não se puder gabar de nenhuma aquisição especial.
O mendigo consciente da sua dignidade despreza o esmoler, apreciando a esmola.
Quem dá esmola silencioso, cumpre melhor o seu dever.
Por dar esmola nunca falta Ă bolsa.
Quem me dera um coração
Que por mim bata somente.
Dai-me essa esmola, Senhor,
Para que eu morra contente!
O Sentimento dum Ocidental
I
Avé-Maria
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulĂcio, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifĂcios, com as chaminĂ©s, e a turba
Toldam-se duma cor monĂłtona e londrina.Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, paĂses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetĂŁo ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.E evoco, entĂŁo, as crĂłnicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu nĂŁo verei jamais!E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
Se a mendicidade é desgraça, a esmola é dever. É a oração por excelência. Acerta sempre no alvo.
Quando a esmola vem, já o padre está cansado.
Essa fora a conclusão máxima que já pude obter duma análise simples do mendigo pedindo esmola.