Passagens sobre Flores

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Frases sobre flores, poemas sobre flores e outras passagens sobre flores para ler e compartilhar. Leia as melhores citações em Poetris.

Soneto Do Amor Demais

Não, já não amo mais os passarinhos
A quem, triste, contei tanto segredo
Nem amo as flores despertadas cedo
Pelo vento orvalhado dos caminhos.

NĂŁo amo mais as sombras do arvoredo
Em seu suave entardecer de ninhos
Nem amo receber outros carinhos
E até de amar a vida tenho medo.

Tenho medo de amar o que de cada
Coisa que der resulte empobrecida
A paixĂŁo do que se der Ă  coisa amada

E que nĂŁo sofra por desmerecida
Aquela que me deu tudo na vida
E que de mim sĂł quer amor – mais nada.

Ironias do Desgosto

“Onde Ă© que te nasceu” – dizia-me ela Ă s vezes –
“O horror calado e triste Ă s coisas sepulcrais?
“Por que Ă© que nĂŁo possuis a verve dos franceses
“E aspiras, em silĂŞncio, os frascos dos meus sais?

“Por que Ă© que tens no olhar, moroso e persistente,
“As sombras dum jazigo e as fundas abstrações,
“E abrigas tanto fel no peito, que nĂŁo sente
“O abalo feminil das minhas expansões?

“Há quem te julgue um velho. O teu sorriso Ă© falso;
“Mas quando tentas rir parece entĂŁo, meu bem,
“Que estĂŁo edificando um negro cadafalso
“E ou vai alguĂ©m morrer ou vĂŁo matar alguĂ©m!

“Eu vim – nĂŁo sabes tu? – para gozar em maio,
“No campo, a quietação banhada de prazer!
“NĂŁo vĂŞs, Ăł descorado, as vestes com que saio,
“E os jĂşbilos, que abril acaba de trazer?

“NĂŁo vĂŞs como a campina Ă© toda embalsamada
“E como nos alegra em cada nova flor?
“EntĂŁo por que Ă© que tens na fronte consternada”
“Um nĂŁo-sei-quĂŞ tocante e enternecedor?”

Eu sĂł lhe respondia: — “Escuta-me.

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Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta… Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror.

Não penses que a flor de ipoméia seja a mais bela. Não penses que a rosa seja a mais bela das flores. Não penses que seja glicínia a mais bela, ou a peônia. Todas as vidas são belas. Tudo no Universo é belo.

Engrinalda-me com os Teus Braços

Teu corpo de âmbar, gótico, afilado,
Sempre velado de cheirosos linhos,
Teu corpo, aprilino prado,
Por onde o meu desejo, pastor brando,
Risonho há-de viver, pastoreando
Meus beiços, desinquietos cordeirinhos,
Teu corpo Ă© esbelto, Ăł zagaia esguia,
Como as harpas que o pai de SalomĂŁo tangia!

Teu corpo eléctrico, ogival,
NĂşbil, sequinho, perturbante,
É uma dispensa real:
Os teus olhos sĂŁo duas cabacinhas
Cheias dum vinho estonteante
Os teus dentes sĂŁo alvas camarinhas,
Os teus dedos, suavĂ­ssimos espargos,
E os teus seios, pĂŞssegos verdes mas nĂŁo amargos.

Lira de nervos, glĂłria das trigueiras,
Como tu Ă©s graciosa! As laranjeiras,
Desde que viste o sol com esses sĂłis amados,
SĂł vinte vezes perfumaram noivados!
Nobre e graciosa Ă©s, morena das morenas,
Como as senhoras de olhos belos,
Que passeavam nos jardins de Atenas
Com uma cigarra de ouro nos cabelos!

Como tu, eu sou moço! e atrevido
Com Anceu, rei de Samos,
E jamais caçador me fez vencido,
Quando, caçando o javali, ando entre os ramos.
O meu peito Ă© de jaspe,

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A GĂ©nese de um Povo

A refeição chegou muito tempo depois, fumegante, num alguidar de barro de cujo interior provinham diferentes odores a infância e a flores. A sua chegada, a sala inteira pareceu aquecer-se. Como em criança, José Artur pegou numa fatia do pão doce cortado à sua frente e colocou-a no fundo do prato, derramando sobre ela sucessivas conchas do caldo em que a carne mergulhava. Depois ergueu gravemente um dos pedaços dessa carne e passou-o para o prato também.

Levou o garfo à boca e fechou os olhos, a manteiga e o cravo-da-índia e o toucinho de fumo diluindo-se e recombinando-se numa afluência de sabores que se metamorfoseava. Ganhavam, perdiam e recuperavam cambiantes, à medida que entravam em acção novos ingredientes ainda, o vinho e a pimenta da Jamaica e a cebola e a banha de porco e de novo a carne, magnífica, derretendo-se-lhe na boca e fundindo-se com ela, como se ele tivesse, finalmente, atingido terra firme.

Comeu até ao fim, numa voragem antiga, e depois pegou nos últimos pedacinhos do pão doce e pôs-se a ensopar o resto do molho, comendo-os também.
«Massa sovada», lembrou-se. «Massa sovada!» Sabia-lhe a terramotos e a redenção.
Chegou-se para trás.

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Aleluia

Era a mulher — a mulher nua e bela,
Sem a impostura inĂştil do vestido
Era a mulher, cantando ao meu ouvido,
Como se a luz se resumisse nela…
Mulher de seios duros e pequenos
Com uma flor a abrir em cada peito.
Era a mulher com bĂ­blicos acenos
E cada qual para os meus dedos feito.
Era o seu corpo — a sua carne toda.
Era o seu porte, o seu olhar, seus braços:
Luar de noite e manancial de boda,
Boca vermelha de sorrisos lassos.
Era a mulher — a fonte permitida
Por Deus, pelos Poetas, pelo mundo…
Era a mulher e o seu amor fecundo
Dando a nĂłs, homens, o direito Ă  vida!

Prece do Natal

Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos sĂŁo tĂŁo pesados
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

NĂłs somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
Ă€ alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mĂŁo
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.

Esta pobre gente
Que mal Ă© que fez?
NĂłs somos, talvez,
Um povo «inocente»…

Menino Jesus
Que andais distraĂ­do
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

A mais insofrida
De tantas misérias
– Não termos mais férias
Ao longo da vida –

Trocai por amenas
ManhĂŁs sem cuidados,
SilĂŞncios banhados
De ideias serenas;

Por cantos e flores
Risonhas imagens
Macias paisagens
Felizes amores!

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A Canção da Vida

A vida Ă© louca
a vida Ă© uma sarabanda
Ă© um corrupio…
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto Ă© primavera,
enquanto o mundo
nĂŁo poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aĂ­…
como um salso chorando
na beira do rio…
(Como a vida Ă© bela! como a vida Ă© louca!)

A Jovem Cativa

(André Chenier)

— “Respeita a foice a espiga que desponta;
Sem receio ao lagar o tenro pâmpano
Bebe no estio as lágrimas da aurora;
Jovem e bela também sou; turvada
A hora presente de infortúnio e tédio
Seja embora: morrer nĂŁo quero ainda!

De olhos secos o estĂłico abrace a morte;
Eu choro e espero; ao vendaval que ruge
Curvo e levanto a tímida cabeça.
Se há dias maus, também os há felizes!
Que mel nĂŁo deixa um travo de desgosto?
Que mar nĂŁo incha a um temporal desfeito?

Tu, fecunda ilusĂŁo, vives comigo.
Pesa em vão sobre mim cárcere escuro,
Eu tenho, eu tenho as asas da esperança:
Escapa da prisĂŁo do algoz humano,
Nas campinas do céu, mais venturosa,
Mais viva canta e rompe a filomela.

Deve acaso morrer ? TranqĂĽila durmo,
TranqĂĽila velo; e a fera do remorso
NĂŁo me perturba na vigĂ­lia ou sono;
Terno afago me ri nos olhos todos
Quando apareço, e as frontes abatidas
Quase reanima um desusado jĂşbilo.

Desta bela jornada Ă© longe o termo.

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O Amor, Meu Amor

Nosso amor Ă© impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas sĂŁo luz
e dĂŁo a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha prĂłpria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,

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O caminho da mulher honesta está juncado de flores; mas estas crescem atrás dos seus passos e não na frente.

A um Retrato

Amo-te, flor! Se te amo, Deus que o sabe
Que o diga a teus irmĂŁos, que o CĂ©u povoam
E ébrios de glória cânticos entoam
A quem no mar, na Terra e CĂ©us nĂŁo cabe.

Se te amo, flor! que o diga o mar que expele
Quanto Ă© domĂ­nio, e beija humilde a praia…
Se mal que a Lua lá das ondas saia
Nas rochas me nĂŁo vĂŞ gemer com ele!

Amo-te, flor! Se te amo, o Sol que o diga:
Quando lá da montanha aos Céus se eleva,
Se entre os vermes do pĂł, que o vento leva,
Me banha a mim também na luz amiga.

Se te amo, flor? Sem ti… que noite escura,
Meu céu, meu campo em flor, meu dia e tudo!
Diga-te a noite minha se te iludo,
Se em vida já sem ti sonhei ventura!

O anjo que no berço humilde e escasso
Do CĂ©u me veio alumiar piedoso
E em lágrimas e riso, pranto e gozo,
Desde entĂŁo me acompanha passo a passo;

És tu! Amo-te e muito!

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Elegia do Amor

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que Ă­amos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde sĂł Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mĂŁo,
Um lĂ­rio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepĂşsculo terno
E doce diluĂ­a,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memĂłria…
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Ă€s vezes, distraĂ­da,
Como quem olha o mar,
Ă€ tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava,

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O Anel de Corina

Enquanto espera a hora combinada
De o remeter com flores a Corina,
OvĂ­dio oscĂşla o anel que lhe destina
E em que uma gema fulge bem gravada.

— « Como eu te invejo, ó prenda afortunada !
« Com ela vais dormir, mimosa e fina,
« Com ela has-de banhar-te na piscina
« Donde sairá, qual Venus, orvalhada,

« O dorso e o seio lhe verás de rosas,
« E selarás as cartas deliciosas
« Com que em minh’alma alento e esp’rança verte…

« E temendo (suprema f’licidade!)
« Que a cera adira á pedra, ai! então ha-de
« Com a ponta da língua humedecer-te! »

Passa uma Borboleta por Diante de Mim

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas nĂŁo tĂŞm cor nem movimento,
Assim como as flores nĂŁo tĂŞm perfume nem cor.
A cor Ă© que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento Ă© que se move,
O perfume Ă© que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta Ă© apenas borboleta
E a flor Ă© apenas flor.

Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso…
Que delĂ­cia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No ĂŞxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana…
A inĂştil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
VĂŁo um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,

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