O Governo Mundial
Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso Ă© precário, e enquanto durar o nosso sistema polĂtico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos hĂŁo-de surgir de vez em quando. Isso acontecerá inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas forças armadas e juiz supremo dos seus prĂłprios direitos em qualquer disputa. Há somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, Ă© a criação de uma autoridade mundial Ăşnica, que possua o monopĂłlio de todas as armas mais perigosas.
Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispensável possuir um mĂnimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monopĂłlio de todas as principais armas de guerra e as forças armadas necessárias para o seu emprego. Devia tambĂ©m tomar as precauções indispensáveis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunstâncias, a lealdade dessas forças ao governo central.
O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas forças armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter Ă s decisões da autoridade mundial. Todo o emprego da força, de um Estado contra o outro, tornaria o agressor um inimigo pĂşblico e implicaria o emprego, contra ele, das forças armadas do governo mundial. Estes seriam os poderes essenciais para salvaguardar a paz. Uma vez conseguidos, outros se lhes seguiriam. Haveria necessidade de corpos constituĂdos para desempenhar as funções legislativas e judiciais; mas tais corpos desenvolver-se-iam naturalmente se as condições militares fossem realizadas; o que Ă© difĂcil e vital Ă© dotar de uma força irresistĂvel a autoridade central.
O governo mundial pode ser democrático ou totalitário; pode ter a sua origem no consentimento ou na conquista; pode ser o governo nacional de um Estado que conseguiu conquistar o mundo ou, pelo contrário, uma autoridade em que cada Estado, ou cada ser humano, tenha iguais direitos. Por minha parte creio que se tal governo se constituir um dia será Ă base do consentimento nalgumas regiões e Ă base da conquista noutras. Numa guerra mundial entre dois grupos de nações, pode suceder que os vencedores desarmem os vencidos e comecem a governar o mundo por meio de instituições unificadoras desenvolvidas durante o conflito. Gradualmente, Ă medida que se desvaneça a hostilidade provocada pela guerra, as nações vencidas poderĂŁo ser admitidas como associadas. NĂŁo creio que a espĂ©cie humana tenha suficiente habilidade polĂtica ou um elevado espĂrito de tolerância para estabelecer um governo mundial somente Ă base do consentimento. Por isso penso que um elemento de força deve ser necessário, tanto para o seu estabelecimento como para a sua protecção durante os primeiros anos.