Para te escrever eu antes me perfumo toda. Eu te conheço todo por te viver toda. Em mim é profunda a vida. As madrugadas vêm me encontrar pálida de ter vivido a noite dos sonhos fundos. Embora às vezes eu sobrenade num raso aparente que tem debaixo de si uma profundidade de azul-escuro quase negro. Por isso te escrevo. Por sopro das grossas algas e no tenro nascente do amor.
Frases sobre Vez de Clarice Lispector
80 resultadosVocê as vezes não estranha de ser você?
Alguma coisa mais do que ela, de que já não tinha consciência, rezara. Mas não queria orar, repetiu-se mais uma vez fracamente. Não queria porque sabia que esse seria o remédio. Mas um remédio como a morfina que adormece qualquer espécie de dor. Como a morfina de que se precisa cada vez mais de maiores doses para senti-la.
Às vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda…
O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam uma à outra é o sentimento de solidão.
Mais uma vez ou duas na vida – talvez num fim de tarde, num instante de amor, no momento de morrer – teria sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de que era realmente imortal para todo o sempre.
Na exigência de vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial.
Antes de abrir a porta do coração novamente, melhor limpar a bagunça que ficou da última vez.
As pessoas que falam da minha inteligência estão na verdade confundindo «inteligência» com o que chamarei agora de «sensibilidade inteligente». Esta, sim, várias vezes tive ou tenho. E, apesar de admirar a inteligência pura, acho mais importante, para viver e entender os outros, essa sensibilidade inteligente.
Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade.
Não se deve viver em luxo. No luxo a gente se torna um objecto que por sua vez tem objectos. Só se vê a «coisa» quando se leva uma vida monástica ou pelo menos sóbria. O espírito pode viver a pão e água.
Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate.
Pela primeira vez eu sinto que me esquecimento está enfim ao nível do mundo.
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
Depois que vivo é que sei que vivi. Na hora o viver me escapa. Sou uma lembrança de mim mesma. Só depois de «morrer» é que vejo que vivi. Eu me escapo de mim mesma. Às vezes eu me apresso em acabar um episódio íntimo de vida, para poder captá-lo em recordações, e para, mais do que ter vivido, viver. Um viver que já foi. Deglutido por mim e fazendo agora parte do meu sangue.
Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu.
Às vezes me dá enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só.
Tudo às vezes é questão de mão recusada ou dada, tudo às vezes por causa de um passo a mais ou a menos.
Às vezes escrever uma só linha basta para salvar o próprio coração.
Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai. Cada mudança, cada projecto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue.