Absurdo
Ninguém te disse nada, ninguém soube
do anel que se perdia em tuas mãos
e crescia nas coisas reduzindo-as
à ausência mais completa do existir.Mesmo quando o limite era essa zona
fugidia de gestos e silêncios
e a noite desdobrava em tua pele
o mapa das cidades compassivas,ninguém pôde saber do imprevisível,
do lado mais secreto e numeroso
que havia em ti, na vida que buscavase que perdias sempre, por mais fundo,
por mais limpo que fosse o privilégio
da mágoa sempre nova de perdê-la.
Passagens de Gilberto Mendonça Teles
5 resultadosAnulação
Ocupar o espaço
contido na sombra,
ser o pó do espesso,
o vão da penumbra,o dó sem começo,
o nó sem vislumbre,
o invisível traço
do não-ser: escombro.Ser zero, ou nem isso:
letra morta, timbre
do vazio no osso.Ser aquém do nome
— o só do soluço
de coisa nenhuma.
Módulo
Alguém te considera e te recolhe
das hélades perdidas.Um navio sem hélice levanta
seu voo de silêncio, desdobrando
as velas que te alindam na distância
da noite mais antiga.Os deuses se juntaram para ouvir
a leitura solene de teu nome
disperso no poema.
Tudo o mais
é sinal de ruptura, senão rapto.
Paixão
— Quanto dura uma paixão?
Uma paixão não dura nada, apenas
a eternidade simples de um sorriso
que, por ser belo, e possuir antenas
capta constantemente o paraíso.Uma paixão é sempre um peixe grande,
uma alegria que se torna amarga
quando se perde a noite e, na manhã
de sol, se perde o anzol na linha larga.Nem adianta, aí, mudar de isca,
cevar o poço e procurar no fundo:
o peixe da paixão é sombra arisca
na melhor pescaria deste mundo.Ela não dura muito e, por ser peixe,
não dura na emoção, não dura nada:
se se perde no fundo, é sempre um feixe
de luz
— alguma escama nacarada,
caco de vidro, areia no sol quente
que cintila e se apaga, de repente.
Tecido
O texto tem sua face
de avesso na superfície:
é dia e noite, sintaxe
do que se pensa, ou se disse.Tudo no texto é disfarce,
ritual de voz e artifício,
como se tudo falasse
por si mesmo, na planície.Seja por dentro ou por fora,
seja de lado ou durante,
o texto é sempre demora:o descompasso da escrita
e da leitura no grande
intervalo dos sentidos.