A Chama da Vida e o Fogo das PaixÔes
Nem sempre estar apaixonado é bom. A maior parte das paixÔes tomam conta da vontade e assumem o controlo do sentir e do pensar. Prometem a maior das libertaçÔes, mas escravizam quem desiste de si mesmo e a elas se submete.
A paixĂŁo Ă© sofrimento, um furor que Ă© o oposto da paz e do contentamento. Um vazio fulminante capaz das maiores acrobacias para se satisfazer. Mas que, como nunca se sacia, acaba por se consumir, por se destruir a si mesmo. Para ter paz precisamos de fazer esta guerra, na conquista do mais exigente de todos os equilĂbrios: entre a monotonia de nada arriscar e a imprudĂȘncia de entregar tudo sem uma vontade prĂłpria profunda. Ă essencial que saibamos desafiarmo-nos, por vezes, a um profundo desequilĂbrio momentĂąneo. Afinal, quem nunca ousa estĂĄ perdido, para sempre.
HĂĄ boas paixĂ”es. SĂŁo as que trabalham como um fermento. De forma pacata, pacĂfica e paciente. Animam, mas nĂŁo dominam. Orientam, mas nĂŁo decidem. Iluminam, mas nĂŁo cegam.Quase ninguĂ©m faz ideia da capacidade que cada um de nĂłs tem para suportar e vencer grandes sofrimentos…
Por paixÔes comuns, hå quem perca a cabeça, o coração e a alma.
Passagens sobre ImprudĂȘncia
15 resultadosImprudĂȘncia Ă© o Ășnico sentimento que pode inspirar nossas vidas e nĂŁo tem argumentos para se defender.
O Encanto da Vida
Todas as noites acordado atĂ© desoras, Ă espera da Ășltima cena de pancadaria num jogo de futebol, do Ășltimo insulto num debate parlamentar, do Ășltimo discurso demagĂłgico num comĂcio eleitoral, da Ășltima pirueta dum cabotino entrevistado, da Ășltima farsa no palco internacional. CrucificaçÔes masoquistas, que a prudĂȘncia desaconselha e a imprudĂȘncia impĂ”e. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.
Mas nĂŁo hĂĄ perspicĂĄcia, nem constĂąncia de atenção capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A violĂȘncia, o facciosismo, a ambição de poder, a crueldade e o exibicionismo nĂŁo tĂȘm limites. Felizmente que a abnegação, a generosidade e o altruĂsmo tambĂ©m nĂŁo. E o encanto da vida Ă© precisamente esse: nenhum excesso nela ser previsĂvel. Nem no mal nem no bem. E nĂŁo me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, Ă luz dos acontecimentos.
Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o Ăłdio, sobre a santidade, sobre a perfĂdia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o ĂĄ-bĂȘ-cĂȘ da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido,
A IlusĂŁo da ConsistĂȘncia da Obra do Escritor
O homem nĂŁo Ă© permanentemente igual a si mesmo. A velha concepção dos carĂĄcteres rectilĂneos e das mentalidades cristalizadas em sistemas imutĂĄveis abriu falĂȘncia. Tudo muda, no espaço e no tempo. Para um organismo vivo, existir – mesmo no ponto de vista somĂĄtico – Ă© transformar-se. Quando começamos cedo e envelhecemos na actividade das letras, nĂŁo hĂĄ um nĂłs apenas um escritor; hĂĄ, ou houve, escritores sucessivos, mĂșltiplos e diversos, representando estados de evolução da mesma mentalidade incessantemente renovada. Ao chegar a altura da vida em que a estabilização se opera, olhamos para trĂĄs, e muitas das nossas prĂłprias obras parecem-nos escritas por um estranho, tĂŁo longe se encontram jĂĄ, nĂŁo apenas dos nossos processos literĂĄrios, mas do nosso espĂrito, das nossas tendĂȘncias, da nossa orientação, dos nossos pontos de vista Ă©ticos e estĂ©ticos.
Nesse exame retrospectivo, por vezes doloroso, se de algumas coisas temos de louvar-nos – obras a que a nossa mocidade comunicou a chama viva do entusiasmo e da paixĂŁo -, de outras somos forçados a reconhecer a pobreza da concepção, os vĂcios da linguagem, as carĂȘncias da tĂ©cnica, e tantas vezes (poenitet me!) as audĂĄcias, as incoerĂȘncias, as injustiças, as demasias, a licença de certas pinturas de costumes e o erro de certas atitudes morais.
NĂŁo hĂĄ sorte nem desgraça; o que hĂĄ Ă© prudĂȘncia e imprudĂȘncia.
A Fragilidade dos Valores
Todas as coisas «boas» foram noutro tempo mĂĄs; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudĂȘncia de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, benĂ©volos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os «valores por excelĂȘncia»; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.
A submissĂŁo ao direito: oh! que revolução de consciĂȘncia em todas as raças aristocrĂĄticas quando tiveram de renunciar Ă vingança para se submeterem ao direito! O «direito» foi por muito tempo um vetitum, uma inovação, um crime; foi instituĂdo com violĂȘncia e oprĂłbio.
Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos suplĂcios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumerĂĄveis mĂĄrtires; por estranho que isto hoje nos pareça, jĂĄ o demonstrei na Aurora, aforismo 18: «Nada custou mais caro do que esta migalha de razĂŁo e de liberdade, que hoje nos envaidece». Esta mesma vaidade nos impede de considerar os perĂodos imensos da «moralização dos costumes» que precederam a histĂłria capital e foram a verdadeira histĂłria,
Riqueza Ilimitada mas Mortal
Eu nĂŁo posso, pensando bem, descobrir como Ă© possĂvel a nĂłs, que demos tanta importĂąncia Ă riqueza ilimitada e que, para falar a verdade, a divinizamos, nĂŁo admitir nas nossas almas os males que crescem com ela. Acompanha, com efeito, a riqueza sem medida e sem coração, ligada a ela, e como se diz marchando no mesmo passo, a prodigalidade, e Ă medida que a riqueza abre o acesso Ă s cidades e Ă s casas ela entra junto e coabita. Depois, com o tempo, segundo os sĂĄbios, esses seres fazem os seus ninhos nas vidas humanas e rapidamente engendram outros seres, no momento da procriação, como a cupidez, o orgulho e a luxĂșria, que nĂŁo sĂŁo seus bastardos mas filhos legĂtimos.
Mas se permitir que esses filhos da riqueza avancem na idade, logo para as almas eles engendrarĂŁo tiranos inexorĂĄveis, a violĂȘncia, a ilegalidade e a imprudĂȘncia. Pois Ă© assim necessariamente; os homens nĂŁo olham mais para o alto e nĂŁo dĂŁo importĂąncia ao renome na posteridade, mas a destruição das vidas (dos homens) completa-se pouco a pouco num tal ciclo e a grandeza das almas fenece, enfraquece e nĂŁo Ă© mais assunto de emulação, quando se reserva a sua admiração Ă s partes mortais de si mesmo,
A Acção Vai Bem sem a Paixão
Fazemos coisas iguais com forças diversas e diferente esforço de vontade. A acção vai bem sem a paixĂŁo. Pois quantas pessoas se arriscam diariamente em guerras que nĂŁo lhes importam, e se sujeitam aos perigos de batalhas cuja perda nĂŁo lhes perturbarĂĄ o prĂłximo sono? Um homem na sua casa, longe desse perigo que nĂŁo teria ousado encarar, estĂĄ mais interessado no desfecho dessa guerra e tem a alma mais inquieta do que o soldado que pĂ”e nela o seu sangue e a sua vida. Essa impetuosidade e violĂȘncia de desejo mais atrapalha do que auxilia a condução do que empreendemos, enche-nos de acrimĂłnia e suspeição contra aqueles com quem tratamos. Nunca conduzimos bem a coisa pela qual somos possuĂdos e conduzidos.
Quem emprega nisso apenas o seu discernimento e a sua habilidade procede com mais vivacidade: amolda, dobra, difere tudo Ă vontade, de acordo com as exigĂȘncias das circunstĂąncias; erra o alvo sem tormento e sem aflição, pronto e intacto para uma nova iniciativa; avança sempre com as rĂ©deas na mĂŁo. Naquele que estĂĄ embriagado por essa intensidade violenta e tirĂąnica vemos necessariamente muita imprudĂȘncia e injustiça; a impetuosidade do seu desejo arrebata-o: sĂŁo movimentos temerĂĄrios e, se a fortuna nĂŁo ajudar muito,
Uma imprudĂȘncia que vinga compromete a inteligĂȘncia da coragem.
InocĂȘncia, na acepção em que tomamos a palavra, quer dizer ignorĂąncia do que Ă© impuro. Quem cora ao ouvir uma imprudĂȘncia, claro Ă© que distingue, e quem distingue duas coisas conhece-as ambas.
A Amizade como Auxiliar da Virtude
A maioria dos homens, na sua injustiça, para nĂŁo dizer na sua imprudĂȘncia, quer possuir amigos tais como eles prĂłprios nĂŁo seriam. Exigem o que nĂŁo tĂȘm. O que Ă© justo Ă© que, primeiro, sejamos homens de bem e em seguida procuremos o que nos pareça sĂȘ-lo. SĂł entre homens virtuosos se pode estabelecer esta conveniĂȘncia em amizade, sobre a qual insisto hĂĄ muito tempo. Unidos pela benevolĂȘncia, guiar-se-ĂŁo nas paixĂ”es a que se escravizam os outros homens. AmarĂŁo a justiça e a equidade. EstarĂŁo sempre prontos a tudo empreender uns pelos outros, e nĂŁo se exigirĂŁo reciprocamente nada que nĂŁo seja honesto e legĂtimo. Enfim, terĂŁo uns para os outros, nĂŁo somente deferĂȘncias e ternuras, mas, tambĂ©m, respeito. Eliminar o respeito da amizade Ă© podar-lhe o seu mais belo ornamento.
Ă pois erro funesto crer que a amizade abre via livre Ă s paixĂ”es e a todos os gĂ©neros de desordens. A natureza deu-nos a amizade, nĂŁo como cumplice do vĂcio, mas como auxiliar da virtude.
A fim de que a virtude, que, sozinha, nĂŁo poderia chegar ao ĂĄpice, pudesse atingi-lo com o auxĂlio e o apoio de tal companhia. Aqueles para quem esta aliança existe, existiu ou existirĂĄ,
A mais conhecida fonte de imprudĂȘncias Ă© a visĂŁo que se tem da possibilidade dos recursos.
A maior parte dos homens, em polĂtica como em tudo, atribui os resultados das suas imprudĂȘncias Ă firmeza dos seus princĂpios.
Excesso de Leitura
Existem dois modos distintos de ler os autores: um deles Ă© muito bom e Ăștil, o outro, inĂștil e atĂ© mesmo perigoso. Ă muito Ăștil ler quando se medita sobre o que Ă© lido; quando se procura, pelo esforço da mente, resolver as questĂ”es que os tĂtulos dos capĂtulos propĂ”em, mesmo antes de se começar a lĂȘ-los; quando se ordenam e comparam as idĂ©ias umas com as outras; em suma, quando se usa a razĂŁo. Pelo contrĂĄrio, Ă© inĂștil ler quando nĂŁo entendemos o que lemos, e perigoso ler e formar conceitos daquilo que lemos quando nĂŁo examinamos suficientemente o que foi lido para julgar com cuidado, sobretudo se temos memĂłria bastante para reter os conceitos firmados e imprudĂȘncia bastante para concordar com eles. O primeiro modo de ler ilumina e fortifica a mente, aumentando o entendimento. O segundo diminui o entendimento e gradualmente o torna fraco, obscuro e confuso. Ocorre que a maior parte daqueles que se vangloriam de conhecer as opiniĂ”es dos outros estuda apenas do segundo modo. Quando mais lĂȘem, portanto, mais fracas e mais confusas se tornam as suas mentes.
A generosidade perdoa, a imprudĂȘncia esquece.