Passagens sobre InĂșteis

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Frases sobre inĂșteis, poemas sobre inĂșteis e outras passagens sobre inĂșteis para ler e compartilhar. Leia as melhores citaçÔes em Poetris.

Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,
NĂŁo sinto jĂĄ, nĂŁo penso,
Pairo na luz, suspenso…
Que delĂ­cia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No ĂȘxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana…
A inĂștil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
VĂŁo um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,

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Se consegues viver uma tarde absolutamente inĂștil, de maneira absolutamente inĂștil, entĂŁo sabes viver.

Soneto De Agosto

Tu me levaste eu fui… Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estĂĄvamos unidos
NĂłs que andĂĄvamos sempre separados.

Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.

SĂł assim arrancara a linha inĂștil
Da tua eterna tĂșnica inconsĂștil…
E para a glĂłria do teu ser mais franco

Quisera que te vissem como eu via
Depois, Ă  luz da lĂąmpada macia
O pĂșbis negro sobre o corpo branco.

Aspiração

Sinto que hĂĄ na minha alma um vĂĄcuo imenso e fundo,
E desta meia morte o frio olhar do mundo
NĂŁo vĂȘ o que hĂĄ de triste e de real em mim;
Muita vez, Ăł poeta, a dor Ă© casta assim;
Refolha-se, nĂŁo diz no rosto o que ela Ă©,
E nem que o revelasse, o vulgo não pÔe fé
Nas tristes comoçÔes da verde mocidade,
E responde sorrindo Ă  cruel realidade.

Não assim tu, ó alma, ó coração amigo;
Nu, como a consciĂȘncia, abro-me aqui contigo;
Tu que corres, como eu, na vereda fatal
Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal.
Deixemos que ela ria, a turba ignara e vĂŁ;
Nossas almas a sĂłs, como irmĂŁ junto a irmĂŁ,
Em santa comunhão, sem cårcere, sem véus.
Conversarão no espaço e mais perto de Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida
NĂŁo lhe depara o gozo e a glĂłria apetecida;
Tarja de luto a folha em que lhe deixa escritas
A suprema saudade e as dores infinitas.
Alma errante e perdida em um fatal desterro,

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Elementos de VitĂłria

EstĂŁo cheias as livrarias de todo o mundo de livros que ensinam a vencer. Muitos deles contĂȘm indicaçÔes interessantes, por vezes aproveitĂĄveis. Quase todos se reportam particularmente ao ĂȘxito material, o que Ă© explicĂĄvel, pois Ă© esse o que supremamente interessa a grande maioria dos homens.
A ciĂȘncia de vencer Ă©, contudo, facĂ­lima de expor; em aplicĂĄ-la, ou nĂŁo, Ă© que estĂĄ o segredo do ĂȘxito ou a explicação da falta dele. Para vencer – material ou imaterialmente – trĂȘs coisas definĂ­veis sĂŁo precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades, e criar relaçÔes. O resto pertence ao elemento indefinĂ­vel, mas real, a que, Ă  falta de melhor nome, se chama sorte.
NĂŁo Ă© o trabalho, mas o saber trabalhar, que Ă© o segredo do ĂȘxito no trabalho. Saber trabalhar quer dizer: nĂŁo fazer um esforço inĂștil, persistir no esforço atĂ© o fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada.
Aproveitar oportunidades quer dizer nĂŁo sĂł nĂŁo as perder, mas tambĂ©m achĂĄ-las. Criar relaçÔes tem dois sentidos – um para a vida material, outro para a vida mental. Na vida material a expressĂŁo tem o seu sentido directo. Na vida mental significa criar cultura.

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Escreve!

NĂŁo sei o que supor
Do teu silĂȘncio. Escreve!
Quem Ă© amado deve
Ser grato ao menos, flor!

Se eu fosse tĂŁo feliz
Que te falasse um dia,
De viva voz diria
Mais do que a carta diz.

Mas olha, tal qual Ă©,
NĂŁo rias desse escrito,
Que pouco ou muito Ă© dito
Tudo de boa-fé.

HĂĄ nesse teu olhar
A doce luz da Lua,
Mas luz que se insinua
A ponto de abrasar…

Pareça nele, sim,
Que hå só doçura, embora,
HĂĄ fogo que devora…
Que me devora a mim!

Que mata, mas que dĂĄ
Uma suave morte;
Mata da mesma sorte
Que uma ĂĄrvore que hĂĄ;

Que ao pé se lhe ficou
Acaso alguém dormindo
Adormeceu sorrindo…
Porém não acordou!

Esse teu seio entĂŁo…
Que encantadora curva!
Como de o ver se turva
A vista e a razĂŁo!

Como até mesmo o ar
Suspende a gente logo,
Pregando olhos de fogo
Em tĂŁo formoso par!

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As AtracçÔes Inferiores

Faz pena. A gente elege entre trinta mil almas meia dĂșzia de indivĂ­duos para conviver, e, afinal, chega perto deles a defender uma pureza polĂ­tica, uma pureza profissional, uma pureza sexual, e caem sobre nĂłs mil argumentos dum pragmatismo dĂșbio, suspeito, que confrange. Longe de se receber estĂ­mulo para combater as tentaçÔes, encontra-se um escorregadoiro conivente para o abismo delas. — É o meio — repito de cada vez, a tentar iludir-me. Mas Ă© inĂștil vendar o olhos. AtĂ© o meio geogrĂĄfico se pode vencer, quanto mais o meio social. Na luta contra as atracçÔes inferiores do ambiente humano Ă© que estĂĄ precisamente a beleza duma vida. O meio! Eles Ă© que sĂŁo o meio, assim perdidos, duplos, comprometidos com a podridĂŁo atĂ© Ă  raiz.

As OscilaçÔes da Personalidade

Pretender que a nossa personalidade seja mĂłvel e susceptĂ­vel de grandes mudanças Ă©, por vezes, noção um pouco contrĂĄria Ă s idĂ©ias tradicionais atinentes Ă  estabilidade do “eu”. A sua unidade foi durante muito tempo um dogma indiscutĂ­vel. Factos numerosos vieram provar quanto esta ideia era fictĂ­cia.
O nosso “eu” Ă© um total. CompĂ”e-se da adição de inumerĂĄveis “eu” celulares. Cada cĂ©lula concorre para a unidade de um exĂ©rcito. A homogeneidade dos milhares de indivĂ­duos que o compĂ”em resulta somente de uma comunidade de acção que numerosas coisas podem destruir.
É inĂștil objectar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante estĂĄvel. Se ela nunca varia, com efeito, Ă© porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolução, a personalidade de um mesmo indivĂ­duo poderĂĄ transformar-se por completo. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fanĂĄticos sanguinĂĄrios. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu impĂ©rio, eles readquiriram sua personalidade pacifica. Desenvolvi, hĂĄ muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolução era incompreensĂ­vel sem ela.
De que elementos se compĂ”e o “eu”,

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NĂłs nunca sabemos bem o que a nossa memĂłria vai reter – e nĂŁo raras vezes damos por nĂłs surpreendidos com uma recordação inĂștil, tirada de um filme sĂ©rie B ou apenas de um dia sem inspiração (mas que, apesar disso, nos repovoa sempre que determinada situação se repete).

Teus Olhos Entristecem

Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem…
NĂŁo me ouves, e prossigo.

Digo o que jĂĄ, de triste,
Te disse tanta vez…
Creio que nunca o ouviste
De tĂŁo tua que Ă©s.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estĂĄs a pensar,
JĂĄ quase nĂŁo sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fĂștil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inĂștil.

A Mais Bela Noite do Mundo

Hoje,
serĂĄ o fim!

Hoje
nem este falso silĂȘncio
dos meus gestos malogrados
debruçando-se
sobre os meus ombros nus
e esmagados!

Nem o luar, pano baço de cenårio velho,
escutando
a minha prisĂŁo de viver
a lição que me ditavam:
– Menino! acende uma vela na tua vida,
que o sol, a luz e o ar
sĂŁo perfumes de pecado.
Tem braços longos e tentadores – o dia!

– Menino! recolhe-te na sombra do meu regaço
que teus pés
são feitos de barro e cansaço!

(Era esta a voz do papĂŁo
pintado de belo
na mĂĄscara de papelĂŁo).

Eram inĂșteis e magoadas as noites da minha rua…
Noites de lua
que lembravam as grilhetas
da minha vida parada.

– AmanhĂŁ,
terĂĄs os mestres, as aulas, os amigos e os livros
e o espectĂĄculo da morgue
morando durante dias
nos teus sentidos gorados.

AmanhĂŁ,
serĂĄ o ultrapassar outra curva
no teu caminho destinado.

(Era esta a voz do papĂŁo
que acendia a vela,

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A Grande InteligĂȘncia Ă© Sobreviver

A grande InteligĂȘncia Ă© sobreviver.
As tartarugas portanto nĂŁo sĂŁo teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciĂȘncia.
Toda a tecnologia Ă© quase inĂștil e estĂșpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontĂąnea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligĂȘncia Ă© sobreviver,
a tartaruga Ă© FilĂłsofa e LaboratĂłrio,
e o Homem que jå foi Rei da criação
nĂŁo passa, afinal, de um crustĂĄceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

InsĂłnia

NĂŁo durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insĂłnia da largura dos astros,
E um bocejo inĂștil do comprimento do mundo.

NĂŁo durmo; nĂŁo posso ler quando acordo de noite,
NĂŁo posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o Ăłpio de ser outra pessoa qualquer!

NĂŁo durmo, jazo, cadĂĄver acordado, sentindo,
E o meu sentimento Ă© um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me nĂŁo sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que nĂŁo sĂŁo nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
LĂĄ fora hĂĄ o silĂȘncio dessa coisa toda.
Um grande silĂȘncio apavorante noutra ocasiĂŁo qualquer,
Noutra ocasiĂŁo qualquer em que eu pudesse sentir.

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Amigo

1.
Amigo, toma para ti o que quiseres,
passeia o teu olhar pelos meus recantos,
e se assim o desejas, dou-te a alma inteira,
com suas brancas avenidas e cançÔes.

2.
Amigo – faz com que na tarde se desvaneça
este inĂștil e velho desejo de vencer.

Bebe do meu cĂąntaro se tens sede.

Amigo – faz com que na tarde se desvaneça
este desejo de que todas as roseiras
me pertençam.

Amigo,
se tens fome come do meu pĂŁo.

3.
Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto
que sem olhares verĂĄs na minha casa vazia:
tudo isto que sobe pelo muros direitos
– como o meu coração – sempre buscando altura.

Sorris-te – amigo. Que importa! NinguĂ©m sabe
entregar nas mĂŁos o que se esconde dentro,
mas eu dou-te a alma, ùnfora de suaves néctares,
e toda eu ta dou… Menos aquela lembrança…

… Que na minha herdade vazia aquele amor perdido
Ă© uma rosa branca que se abre em silĂȘncio…

Tradução de Rui Lage