Não podemos conhecer nada de exterior a nós próprios que nos supere (…) o universo é o espelho em que podemos contemplar apenas o que aprendemos a conhecer em nós.
Passagens de Italo Calvino
28 resultadosO inconsciente é o oceano do indizível, o que foi expulso do território da linguagem, posto de lado em virtude de antigas proibições.
A fé é uma visão das coisas que não se vêem.
Os revolucionários são mais formais que os conservadores.
A Perturbação do Último Acontecimento
A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: “Como poderia viver sem o ter lido!” e ainda: “Que pena não o ter lido quando era jovem!”. Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.
Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
Escrever é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto.
Se o modelo não consegue transformar a realidade, a realidade deveria conseguir transformar o modelo.
A arte de escrever histórias consiste em conseguir retirar do pouco que se compreendeu da vida tudo o resto; porém, acabada a página, a vida renova-se e damo-nos conta de que o que sabíamos era muito pouco.
A loucura é uma força da natureza para o bem ou para o mal, ao passo que a estupidez é uma debilidade da natureza sem contrapartidas.
Os leitores são os meus vampiros.
O Saber Oral
O novo saber que o género humano vai adquirindo não compensa o saber que se propaga apenas pela transmissão oral directa, o qual, uma vez perdido, nunca mais se pode readquirir e retransmitir: nenhum livro pode ensinar aquilo que apenas se pode aprender na infância, se se entrega o ouvido e o olho atentos ao canto e ao voo dos pássaros e se se encontra então alguém que pontualmente lhes saiba dar um nome.
Não é a voz que dirige a história, mas sim o ouvido.
Toda a história não é mais do que uma infinita catástrofe da qual tentamos sair o melhor possível.
O autor de um livro é uma personagem fictícia que o autor real inventa para que seja autor das suas ficções.
Só depois de haver conhecido a superfície das coisas é que se pode proceder à busca daquilo que está embaixo. Mas a superfície das coisas é inexaurível… [Retirado do livro Palomar]
É como um poço sem fundo. Voltamos a sentir o apelo do nada, a tentação de cair, de nos rejuntarmos a uma obscuridade que nos convoca.
Aquilo a que a terminologia romântica chama génio ou inspiração não é mais do que encontrar empiricamente o caminho, seguir o próprio olfacto, tomar atalhos.
Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer.
A Distância Entre Gerações
A solução de continuidade entre as gerações depende da impossibilidade de transmitir a experiência, de fazer evitar aos outros os erros já cometidos por nós. A verdadeira distância entre duas gerações é dada pelos elementos que têm em comum e que obrigam à repetição cíclica das mesmas experiências, como nos comportamentos das espécies animais transmitidos pela herança biológica; ao passo que os elementos da verdadeira diversidade existente entre nós e eles são, pelo contrário, o resultado das modificações irreversíveis que cada época traz consigo, ou seja, dependem da herança histórica que nós lhes transmitimos, a verdadeira herança de que somos responsáveis, mesmo que por vezes o sejamos de forma inconsciente. Por isso não temos nada a ensinar: sobre aquilo que mais se parece com a nossa experiência não podemos influir; naquilo que traz o nosso cunho, não sabemos reconhecer-nos.