Passagens de José Luís Peixoto

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Frases, pensamentos e outras passagens de José Luís Peixoto para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Não são as palavras que distorcem o mundo, é o medo e a vontade. As palavras são corpos transparentes, à espera de uma cor. O medo é a lembrança de uma dor do passado. A vontade é a crença num sonho do futuro. Não são as palavras que distorcem o mundo, é a maneira como entendemos o tempo, somos nós.

Nenhuma tempestade tem força suficiente para arrancar um nome. Aquilo que carregas irĂĄ acompanhar-te sempre, farĂĄ parte atĂ© do teu silĂȘncio. Repara em ti, repara em quanto do que te constitui Ă© eterno e imortal.

Um homem sem certezas perde quase tudo de ser homem. É como o corpo sem a carne, Ă© como as ideias sem o pensamento, um homem sem certezas. Um homem vazio de certezas. Um homem vazio.

Uma Mentira

Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita importĂąncia. Tomamos decisĂ”es, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que virĂĄ a seguir, o futuro atĂ© ao fim dos tempos, serĂĄ diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignificĂąncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa Ă© uma mĂĄquina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros tĂȘm da realidade, leva-os a acreditar que Ă© aquilo que nĂŁo Ă©. Essa poluição vai turvar-lhes a lĂłgica do mundo. As conclusĂ”es a que forem capazes de chegar serĂŁo calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas serĂŁo multiplicaçÔes de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. É por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo nĂŁo lhe dĂĄ cobertura. Para alcançar coerĂȘncia, cada mentira requer a criação apressada de um mundo de mentira que a suporte. É assim que a mentira vai avançando pela verdade adentro,

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Todos temos uma noite para lá de nós, uma noite cega. É a sua imagem concreta a partir da imagem vaga, embaciada pela memória e misturada comigo, que me importa.

Lembrar-me ainda e saber que vou esquecer. Essa é a justificação que dou a mim próprio para escrever estas palavras. Um dia, irei precisar delas para voltar a lembrar-me.

Todos temos um lugar onde a vida se acerta. Cada mundo tem um centro. O meu lugar nĂŁo Ă© melhor do que o teu, nĂŁo Ă© mais importante. Os nossos lugares nĂŁo podem ser comparados porque sĂŁo demasiado Ă­ntimos. Onde existem, sĂł nĂłs os podemos ver. HĂĄ muitas camadas de invisĂ­vel sobre as formas que todos distinguem. NĂŁo vale a pena explicarmos o nosso lugar, ninguĂ©m vai entendĂȘ-lo. As palavras nĂŁo aguentam o peso dessa verdade, terra fĂ©rtil que vem do passado mais remoto, nascente que se estende atĂ© ao futuro sem morte.

Os meus olhos sĂŁo testemunhas da manhĂŁ atravĂ©s da sua cor. É tĂŁo importante que cada pessoa saiba o nome da cor dos seus prĂłprios olhos. NĂŁo Ă© preciso enredar-se em definiçÔes, nomes inventados por decoradores ou por fabricantes de tintas, basta um bom espelho, limpo.

A minha mĂŁe Ă© uma espĂ©cie de sol, ou de morte, Ă© o horizonte, esse Ă© o tamanho da sua realidade. (…) A minha mĂŁe existe em tudo, Ă© infinita.

Luta de Classes

NĂŁo contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrĂĄrio, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura Ă© usada como sĂ­mbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botĂŁo de punho. A raridade Ă© condição indispensĂĄvel desse exibicionismo. SĂł pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de sĂ­mbolos Ă© descrita com pronĂșncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indivĂ­duos raros, a cultura Ă© caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convĂ©m nĂŁo haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no inĂ­cio da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritĂłrios for vista a ler um determinado livro nos transportes pĂșblicos, os snobs que assistam a essa imagem sĂŁo capazes de enjeitĂĄ-lo na hora. ComeçarĂŁo a definir essa obra como “leitura de empregadas de limpeza” (com muita probabilidade utilizarĂŁo um sinĂłnimo mais depreciativo para descrevĂȘ-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra ĂĄrea cultural que possa chegar a muita gente: mĂșsica, cinema, televisĂŁo, etc. Aquilo que mais surpreende Ă© que estes “argumentos”, esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivĂ­duos supostamente cultos,

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Fomos crianças e, depois, transformĂĄmo-nos em nĂłs. Com essa experiĂȘncia, quando olhamos para elas, acreditamos que tambĂ©m elas se transformarĂŁo em nĂłs. VĂȘ-las, sabendo isso e sabendo que elas ignoram essa certeza, faz com que sejamos portadores de um segredo que preferĂ­amos nĂŁo conhecer, que nos afasta das crianças quando tudo o que querĂ­amos era ser crianças, voltar a merecer um pouco dessa pureza, desse descanso.

Somos ruínas. Somos o que foi uma casa com gente viva e crianças a crescer, fumo na chaminé, janelas abertas nas noites de verão, e hoje é tijolos espalhados na terra e arredondados pela chuva, telhas partidas na terra, caliça e terra espalhados no soalho podre de madeira, e ervas a crescer entre as tåbuas do soalho. Alguma vez teremos sido uma coisa sólida, uma casa viva?

Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidÔes em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.

Quando começo a anotar as minhas preocupaçÔes, tão importantes apenas para mim, jå me esqueci de tudo: os segredos esconderam-se por trås de um muro.

A juventude é uma das condiçÔes mais arrogantes que se pode experimentar. Isto porque, actualmente, faz parte da própria noção de juventude não perceber a sua extrema transitoriedade. Todos nos dirgimos para a velhice.

Nunca Me Tinha Apaixonado Verdadeiramente

Escrevi atĂ© o princĂ­pio da manhĂŁ aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofĂĄ grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pĂȘlo dos gatos. O sol a chegar Ă  escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas pĂĄginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lĂĄbios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silĂȘncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhĂĄ-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercĂ­cio, conseguia escrever duas palavras ou, no mĂĄximo, uma frase. Quando a manhĂŁ apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhĂĄ-la. Adormeci com ela dentro de mim.

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois,

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