O ser milagroso Ă© comum e disseminado, mas a candura existe em pouca quantidade.
Passagens de JosĂ© LuĂs Peixoto
226 resultadosNão são as palavras que distorcem o mundo, é o medo e a vontade. As palavras são corpos transparentes, à espera de uma cor. O medo é a lembrança de uma dor do passado. A vontade é a crença num sonho do futuro. Não são as palavras que distorcem o mundo, é a maneira como entendemos o tempo, somos nós.
A gente tem-se uns aos outros e mais nada.
Nenhuma tempestade tem força suficiente para arrancar um nome. Aquilo que carregas irĂĄ acompanhar-te sempre, farĂĄ parte atĂ© do teu silĂȘncio. Repara em ti, repara em quanto do que te constitui Ă© eterno e imortal.
Um homem sem certezas perde quase tudo de ser homem. Ă como o corpo sem a carne, Ă© como as ideias sem o pensamento, um homem sem certezas. Um homem vazio de certezas. Um homem vazio.
Uma Mentira
Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita importĂąncia. Tomamos decisĂ”es, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que virĂĄ a seguir, o futuro atĂ© ao fim dos tempos, serĂĄ diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignificĂąncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa Ă© uma mĂĄquina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros tĂȘm da realidade, leva-os a acreditar que Ă© aquilo que nĂŁo Ă©. Essa poluição vai turvar-lhes a lĂłgica do mundo. As conclusĂ”es a que forem capazes de chegar serĂŁo calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas serĂŁo multiplicaçÔes de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. Ă por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo nĂŁo lhe dĂĄ cobertura. Para alcançar coerĂȘncia, cada mentira requer a criação apressada de um mundo de mentira que a suporte. Ă assim que a mentira vai avançando pela verdade adentro,
Todos temos uma noite para lĂĄ de nĂłs, uma noite cega. Ă a sua imagem concreta a partir da imagem vaga, embaciada pela memĂłria e misturada comigo, que me importa.
Lembrar-me ainda e saber que vou esquecer. Essa é a justificação que dou a mim próprio para escrever estas palavras. Um dia, irei precisar delas para voltar a lembrar-me.
O luto Ă©-nos pesado nos ombros, amigo, mas quem foge dele serĂĄ a sua maior vĂtima.
Todos temos um lugar onde a vida se acerta. Cada mundo tem um centro. O meu lugar nĂŁo Ă© melhor do que o teu, nĂŁo Ă© mais importante. Os nossos lugares nĂŁo podem ser comparados porque sĂŁo demasiado Ăntimos. Onde existem, sĂł nĂłs os podemos ver. HĂĄ muitas camadas de invisĂvel sobre as formas que todos distinguem. NĂŁo vale a pena explicarmos o nosso lugar, ninguĂ©m vai entendĂȘ-lo. As palavras nĂŁo aguentam o peso dessa verdade, terra fĂ©rtil que vem do passado mais remoto, nascente que se estende atĂ© ao futuro sem morte.
Os meus olhos são testemunhas da manhã através da sua cor. à tão importante que cada pessoa saiba o nome da cor dos seus próprios olhos. Não é preciso enredar-se em definiçÔes, nomes inventados por decoradores ou por fabricantes de tintas, basta um bom espelho, limpo.
A minha mĂŁe Ă© uma espĂ©cie de sol, ou de morte, Ă© o horizonte, esse Ă© o tamanho da sua realidade. (…) A minha mĂŁe existe em tudo, Ă© infinita.
Luta de Classes
NĂŁo contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrĂĄrio, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura Ă© usada como sĂmbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botĂŁo de punho. A raridade Ă© condição indispensĂĄvel desse exibicionismo. SĂł pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de sĂmbolos Ă© descrita com pronĂșncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indivĂduos raros, a cultura Ă© caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convĂ©m nĂŁo haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no inĂcio da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritĂłrios for vista a ler um determinado livro nos transportes pĂșblicos, os snobs que assistam a essa imagem sĂŁo capazes de enjeitĂĄ-lo na hora. ComeçarĂŁo a definir essa obra como “leitura de empregadas de limpeza” (com muita probabilidade utilizarĂŁo um sinĂłnimo mais depreciativo para descrevĂȘ-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra ĂĄrea cultural que possa chegar a muita gente: mĂșsica, cinema, televisĂŁo, etc. Aquilo que mais surpreende Ă© que estes “argumentos”, esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivĂduos supostamente cultos,
Ă antigo o desejo de dizer “estive aqui”, a necessidade de dizer “existo”, esse gesto que se pode fazer de tantas formas.
Fomos crianças e, depois, transformĂĄmo-nos em nĂłs. Com essa experiĂȘncia, quando olhamos para elas, acreditamos que tambĂ©m elas se transformarĂŁo em nĂłs. VĂȘ-las, sabendo isso e sabendo que elas ignoram essa certeza, faz com que sejamos portadores de um segredo que preferĂamos nĂŁo conhecer, que nos afasta das crianças quando tudo o que querĂamos era ser crianças, voltar a merecer um pouco dessa pureza, desse descanso.
Somos ruĂnas. Somos o que foi uma casa com gente viva e crianças a crescer, fumo na chaminĂ©, janelas abertas nas noites de verĂŁo, e hoje Ă© tijolos espalhados na terra e arredondados pela chuva, telhas partidas na terra, caliça e terra espalhados no soalho podre de madeira, e ervas a crescer entre as tĂĄbuas do soalho. Alguma vez teremos sido uma coisa sĂłlida, uma casa viva?
Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidÔes em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.
Quando começo a anotar as minhas preocupaçÔes, tão importantes apenas para mim, jå me esqueci de tudo: os segredos esconderam-se por trås de um muro.
A juventude é uma das condiçÔes mais arrogantes que se pode experimentar. Isto porque, actualmente, faz parte da própria noção de juventude não perceber a sua extrema transitoriedade. Todos nos dirgimos para a velhice.
Nunca Me Tinha Apaixonado Verdadeiramente
Escrevi atĂ© o princĂpio da manhĂŁ aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofĂĄ grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pĂȘlo dos gatos. O sol a chegar Ă escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas pĂĄginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lĂĄbios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silĂȘncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhĂĄ-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercĂcio, conseguia escrever duas palavras ou, no mĂĄximo, uma frase. Quando a manhĂŁ apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhĂĄ-la. Adormeci com ela dentro de mim.
Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois,