Grandes Mistérios Habitam
Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.SĂŁo aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E Ă minha alma Ă© cataclismo
O limiar onde está.Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar Ă© medonho
E todo passo Ă© uma cruz.
Passagens sobre Luz
1483 resultadosNão chore nem sofra a desesperança pela perda de um amor. A porta por onde ele saiu, não feche-a, pois como entrar luz num lugar fechado? Deixe-a aberta e, a qualquer momento, pode ser iluminada com a entrada de um novo alguém!
Os Pastores
Guardavam certos pastores
seus rebanhos, ao relento,
sobre os céus consoladores
pondo a vista e o pensamento.Quando viram que descia,
cheio de glĂłria fulgente,
um anjo do céu do Oriente,
que era mais claro que o dia.Jamais os cegara assim
luz do meio-dia ou manhĂŁ.
Dir-se-ia o audaz Serafim,
que um dia venceu SatĂŁ.Cheios de assombro e terror,
rolaram na erva rasteira.
– Mas ele, com voz fagueira,
lhes diz, com suave amor:«Erguei-vos, simples, daĂ,
humildes peitos da aldeia!
Nasceu o vosso Rabi,
que é Cristo – na Galileia!Num berço, o filho real,
nĂŁo o vereis reclinado.
VĂŞ-lo-eis pobre e enfaixado,
sobre as palhas de um curral!Segui dos astros a esteira.
Levai pombas, ramos, palmas,
ao que traz uma joeira
das estrelas e das almas!»Foi-se o anjo: e nas neblinas,
então celestes legiões
soltam mĂsticas canções,
sobre violas divinas.Erguem-se, enfim, os pastores
e vão caminhos dalém,
com palmas, rolas, e flores,
Depois das 7
Depois das 7
as montras sĂŁo mais ĂntimasA vergonha de nĂŁo comprar
nĂŁo existe
e a tristeza de nĂŁo ter
Ă© sĂł nossaE a luz torna mais belo
e mais Ăştil
cada objecto
LVIII
Altas serras, que ao CĂ©u estais servindo
De muralhas, que o tempo nĂŁo profana,
Se Gigantes nĂŁo sois, que a forma humana
Em duras penhas foram confundindo?lá sobre o vosso cume se está rindo
O Monarca da luz, que esta alma engana;
Pois na face, que ostenta, soberana,
O rosto de meu bem me vai fingindo.Que alegre, que mimoso, que brilhante
Ele se me afigura! Ah qual efeito
Em minha alma se sente neste instante!Mas ai! a que delĂrios me sujeito!
Se quando no Sol vejo o seu semblante,
Em vĂłs descubro Ăł penhas o seu peito?
Aproveita a Alegria
Sempre achei mais trágico e inteligente o oportunista que aconselha “aproveita que esta alegria nĂŁo vai continuar, quanto mais repetir-se” do que o realista que despreza a alegria por ser temporária e logo, por atacado, estĂşpida e falsa.
É tudo mentira. Os momentos são tão diferentes uns dos outros como as pessoas que os vivem. Cada um de nós é uma multidão que varia, conforme a ocasião, no pouco tempo de vida, disfarçado para parecer de mais, que nos é concedido. Sem termos pedido.
A atitude de cada um Ă© que manda: vamos aproveitar ou vamos ser verdadeiros? Vamos trair a nossa falsa obrigação para com a verdade que nunca existiu ou oferecermo-nos como vĂtimas da ilusĂŁo que sempre funcionou para nos pĂ´r mais bem dispostos, nĂŁo sĂł Ă maneira do cinema como Ă luz do que vimos no cinema, incluindo o que nĂŁo estava (milagrosamente) lá?
Cabe a cada um escolher o momento do dia e a diferença de cada dia, conforme o mundo e a maré com que vamos ter.
Uma Beleza DificĂlima
O silĂŞncio
abre
o coração das sombras.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas sĂŁo as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas sĂŁo as folhas. Simples.
Lisa a copa.Não há rumor na terra.
As feras nĂŁo nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de sĂł.Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificĂlima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pĂł.
Aquelle Sabio
N’aquellas altas janellas
Que deitam para o telhado;
Eu vejo-o sempre encostado,
A namorar as estrellas.Tem assim ares d’empyrico
Mui lido em philosophástros;
É um pobre poeta lyrico,
Que escreve cartas aos astros.Traz luto nos seus vestidos
Por uma Ophelia de menos,
Tem uns cabellos compridos,
E uns olhos tristes, serenos.Parece um Jove proscripto,
E já descrente das Ledas,
Conhece o hebraico, o sanscrito
E os livros santos dos Vedas.Espelha na luz do olhar
Não sei que visões amenas;
Anda sempre a imaginar
Idylios ás açucenas.E aquella mulher vaidosa
–Que elle chama a sua Egeria–
Ri d’aquella alma anciosa,
E aquella triste miseria………………………………………
……………………………………
……………………………………Mais de tres dias ou quatro
Que lhe falta o necessario;
Estava hontem no theatro
Com luvas cĂ´r de canario.
Quando o coração Ă© aturdido por um tumulto de opostas ideias, o carácter exterior fecha-se, escurece-se, e nĂŁo deixa rasto de luz que encaminhe o observador mais provado na experiĂŞncia das dores que o homem esconde com egoĂsmo Ă fria curiosidade dos estranhos.
A vida Ă© uma luz ao vento.
Cristais
Mais claro e fino do que as finas pratas
O som da tua voz deliciava…
Na dolĂŞncia velada das sonatas
Como um perfume a tudo perfumava.Era um som feito luz, eram volatas
Em lânguida espiral que iluminava,
Brancas sonoridades de cascatas…
Tanta harmonia melancolizava.Filtros sutis de melodias, de ondas
De cantos volutuosos como rondas
De silfos leves, sensuais, lascivos…Como que anseios invisĂveis, mudos,
Da brancura das sedas e veludos,
Das virgindades, dos pudores vivos.
Taciturno
Há Ouro marchetado em mim, a pedras raras,
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais –
Joia profunda a minha Alma a luzes caras,
CibĂłrio triangular de ritos infernais.No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe rial de herois d’Outras bravuras
Em mim se despojou dos seus brazões e presas.Heraldicas-luar sobre Ămpetos de rubro,
Humilhações a liz, desforços de brocado;
Bazilicas de tédio, arnezes de crispado,
Insignias de IlusĂŁo, trofĂ©us de jaspe e Outubro…A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou – embalde a tentarĂŁo descer…
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer –
ManhĂŁs de armas ainda em arraiais de olvido…Percorro-me em salões sem janelas nem portas,
Longas salas de trĂ´no a espessas densidades,
Onde os pânos de Arrás são esgarçadas saudades,
E os divans, em redĂłr, ansias lassas, absortas…Ha rĂ´xos fins de Imperio em meu renunciar –
Caprichos de setim do meu desdem Astral…
Ha exĂ©quias de herois na minha dĂ´r feudal –
E os meus remorsos sĂŁo terraços sobre o Mar…
O génio é como um espelho do qual um lado recebe a luz e o outro é todo enrugado e enferrujado.
Chuva De Fogo
Meus olhos vĂŁo seguindo incendiados
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcançaos sentidos em febre, inebriados,
cativos do delĂrio e dessa trança.
É sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me faltapara o mergulho calmo de um amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixĂŁo e seu levante.
A complicada abundância da nossa civilização material, as nossas máquinas, os nossos telefones, a nossa luz elĂ©ctrica, tem-nos tornado intoleravelmente pedantes: estamos prontos a declarar desprezĂvel uma raça, desde que ela nĂŁo sabe fabricar pianos de Erard; e se há algures um povo que nĂŁo possua como nĂłs o talento de compor Ăłperas cĂłmicas consideramo-lo ipso facto votado para sempre Ă escravidĂŁo…
Na Aldeia
A CristĂłvĂŁo Aires
Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.A taberna Ă© vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem Ă porta insectos variegados,
Envolvidos do sol na luz tremente.Fia Ă soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho
Saiu para os cansaços da lavoura.A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm seminus, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.
Hino da ManhĂŁ
Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,
E enche de força o coração triumphante
Dos que ainda esperam, luz immaculada!Mas a mim pões-me tu tristeza immensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irmĂŁ do desespero,
A noite solitaria, immovel, densa,O vacuo mudo, onde astro nĂŁo palpita,
Nem ave canta, nem susurra o vento,
E adormece o proprio pensamento,
Do que a luz matinal… a luz bemdita!Porque a noite Ă© a imagem do NĂŁo-Ser,
Imagem do repouso inalteravel
E do esquecimento inviolavel,
Que anceia o mundo, farto de soffrer…Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem está já morto…E, interrogando intrepido o Destino,
Como reu o renega e o condemna,
E virando-se, fita em paz serena
O vacuo augusto, placido e divino…Porque a noite Ă© a imagem da Verdade,
Que está além das cousas transitorias.
Das paixões e das formas ilusorias,
Cuidado com qualquer tipo de posicionamento defensivo no seu interior. Que está a defender? Uma identidade ilusĂłria, uma imagem dentro da sua mente, uma entidade fictĂcia. Ao tornar este padrĂŁo consciente, ao ser testemunha dele, o leitor deixa de se identificar com ele. Ă€ luz do seu consciente, o padrĂŁo inconsciente depressa se anula. Este Ă© o fim para todas as discussões e jogos de poder, que tĂŁo corrosivos sĂŁo para os relacionamentos. O poder sobre os outros Ă© fraqueza disfarçada de força. O verdadeiro poder está no interior.
Claro E Escuro
Dentro — os cristais dos tempos fulgurantes,
MĂşsicas, pompas, fartos esplendores,
Luzes, radiando em prismas multicores,
Jarras formosas, lustres coruscantes,PĂşrpuras ricas, galas flamejantes,
Cintilações e cânticos e flores;
Promiscuamente férvidos odores,
MĂłrbidos, quentes, finos, penetrantes.Por entre o incenso, em lĂmpida cascata,
Dos siderais turĂbulos de prata,
Das sedas raras das mulheres nobres;Clara explosão fantástica de aurora,
Deslumbramentos, nos altares! — Fora,
Uma falange intérmina de pobres.
Ad Amicos
Em vão lutamos. Como névoa baça,
A incerteza das coisas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas próprias redes se embaraça.O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvae e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.Filhos do Amor, nossa alma é como um hino
Ă€ luz, Ă liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d’um presentir divino;Mas n’um deserto sĂł, árido e fundo,
Ecoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassĂvel sobre o mundo.