Passagens sobre Pernas

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Frases sobre pernas, poemas sobre pernas e outras passagens sobre pernas para ler e compartilhar. Leia as melhores citações em Poetris.

Calçada de Carriche

LuĂ­sa sobe,
sobe a calçada,
sobe e nĂŁo pode
que vai cansada.
Sobe, LuĂ­sa,
LuĂ­sa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mĂŁo grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, LuĂ­sa,
LuĂ­sa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

LuĂ­sa Ă© nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, LuĂ­sa.
LuĂ­sa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, LuĂ­sa,
LuĂ­sa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
nĂŁo disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito Ă  casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se Ă  pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;

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As Pernas Pesadas

Hoje, temos as pernas pesadas com o nosso peso. Andamos a ver onde pomos os pés, a acautelarmo-nos para não cair, porque se partíssemos uma perna era a nossa morte. Sentimos uma tremura invisível nas pernas, e hoje avançou essa tremura para o dobro, e já se nota ao olhar. Os ossos não se dobram da mesma maneira. Até o respirar é muito diferente do que já foi. Dantes, era corrido, era uma coisa em que não reparávamos. Hoje, é precisa mais força para sorver o ar e, quando o sopramos, soltamos um ruído de asma, como se tivéssemos o pescoço meio entupido ou tivéssemos engolido uma gaita enferrujada.

PĂ´s o cestinho no lugar e amarrou-o na perna de uma mesa, convencido de que o acontecimento esperado era iminente. Foi esta a ocasiĂŁo em que Aureliano ouviu-o dizer:

À noite, Marie esquecera tudo. O filme tinha momentos engraçados e outros realmente idiotas. A sua perna estava encostada na minha. Acariciava-lhe os seios. No fim da sessão, eu a beijei, mas mal. Ao sair, veio para minha casa.

A Intimidade na Amizade

Se dois homens ou duas mulheres tĂŞm de partilhar por algum tempo o mesmo espaço (em viagem, numa carruagem-cama ou numa pensĂŁo superlotada), nĂŁo Ă© raro nascerem nessas situações amizades muito singulares. Cada um tem a sua maneira especial de lavar os dentes, de se curvar para descalçar os sapatos ou de encolher as pernas para dormir. A roupa interior, e o resto do vestuário, embora semelhantes, revelam, no pormenor, inĂşmeras pequenas diferenças a um olhar atento. A princĂ­pio – provavelmente devido ao individualismo excessivo do modo de vida actual – existe qualquer coisa como uma resistĂŞncia semelhante a uma leve repugnância e que rejeita uma aproximação maior, uma ofensa contra a prĂłpria personalidade, atĂ© ao momento em que essa resistĂŞncia Ă© superada para dar lugar a uma comunidade que revela uma estranha origem, como uma cicatriz. Muitas pessoas mostram-se, depois de uma tal transformação, mais alegres do que normalmente sĂŁo; a maior parte mais inofensivas; uma boa parte delas mais faladoras; e quase todas mais amáveis. A sua personalidade mudou, quase se poderia dizer que foi trocada, subcutaneamente, por outra, menos marcada: no lugar do eu surge o primeiro indĂ­cio de um nĂłs, claramente sentido como um mal-estar e uma diminuição,

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Eu deixei me estar a contemplá la. SĂşbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, atĂ© tomar a forma de um X: – decifra me ou devoro te.

Se paro trĂŞs dias, as costas, as pernas e a espinha se deterioram, se fosse uma semana minhas pernas tremeriam na barra, eu desmaiaria.

Ai de mim! – suspirou Bazin – Bem o sei senhor; tudo está de pernas para o ar no mundo de hoje.

Embirração

(A Machado de Assis)

A balda alexandrina é poço imenso e fundo,
Onde poetas mil, flagelo deste mundo,
Patinham sem parar, chamando lá por mim.
NĂŁo morrerĂŁo, se um verso, estiradinho assim,
Da beira for do poço, extenso como ele é,
Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé
Que volte um afogado, Ă  luz da mocidade,
A ver no mundo seco a seca realidade.

Por eles, e por mim, receio, caro amigo;
Permite o desabafo aqui, a sĂłs contigo,
Que Ă  moda fazer guerra, eu sei quanto Ă© fatal;
Nem vence o positivo o frĂ­volo ideal;
Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã,
E até da vã loucura a moda é prima-irmã:
Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus,
Do verso alexandrino há de livrar-nos Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida,

NĂŁo lhe depara o gozo e a glĂłria apetecida;
E o triste, se morreu, deixando mal escritas
Em verso alexandrino histĂłrias infinitas,
Vai ter lá noutra vida insípido desterro,
Se Deus, por compaixão, não dá perdão ao erro;

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A Infinita

VĂŞs estas mĂŁos? Mediram
a terra, separaram
os minerais e os cereais,
fizeram a paz e a guerra,
derrubaram as distâncias
de todos os mares e rios
e, no entanto,
quando te percorrem
a ti, pequena,
grĂŁo de trigo, calhandra,
nĂŁo conseguem abarcar-te,
fatigam-se ao agarrar
as pombas gémeas
que repousam ou voam no teu peito,
percorrem as distâncias das tuas pernas,
enrolam-se na luz da tua cintura.
Para mim tu Ă©s tesouro mais rico
de imensidade do que o mar e seus cachos
e Ă©s branca e azul e extensa como
a terra nas vindimas.
Nesse territĂłrio,
desde os pés à fronte,
andando, andando, andando,
passarei a vida.

NĂŁo Tenho Pressa

NĂŁo tenho pressa. Pressa de quĂŞ?
NĂŁo tĂŞm pressa o sol e a lua: estĂŁo certos.
Ter pressa Ă© crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
NĂŁo; nĂŁo sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega –
Nem um centĂ­metro mais longe.
Toco sĂł onde toco, nĂŁo aonde penso.
SĂł me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer Ă© que nĂłs pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

A Minha Biblioteca é o Meu Harém

Olho para as centenas de livros no meu gabinete e apercebo-me que nĂŁo toquei na maior parte deles depois de os ter lido ou dado uma vista de olhos pela primeira vez. Mas nem sequer considero a hipĂłtese de me desfazer deles – entĂŁo, e se eu quiser abrir este ou aquele um dia destes? Gastei o meu Ăşltimo dinheiro tanto a adquirir novos livros como em prostitutas. Comprar livros novos Ă© um prazer muito diferente do prazer de ler: examinar, cheirar, folhear um livro novo Ă© a prĂłpria felicidade.
Os livros dĂŁo-me confiança pela sua disponibilidade, de que posso sempre aproveitar-me se quiser. O mesmo acontece com as mulheres – preciso de muitas delas e tĂŞm de se abrir Ă  minha fente como os livros. Na verdade, para mim, os livros e as mulheres sĂŁo semelhantes de muitas formas. Abrir as páginas de um livro Ă© o mesmo que afastar as pernas de uma mulher – o conhecimento revela-se Ă  nossa vista.
Todos os livros têm um odor próprio: quando abrimos um livro e cheiramos, cheiramos a tinta, e é diferente em cada livro. Rasgar as páginas de um livro é um prazer inenarrável. Mesmo um livro estúpido me dá prazer quando o abro pela primeira vez.

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O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulĂ­cio, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monĂłtona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetĂŁo ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, entĂŁo, as crĂłnicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu nĂŁo verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Clareira

Quando depois do amor
ela está estendida
para o céu
e as pernas
reluzem

e a boca
tem o ar
de uma bicicleta junto
a uma macieira

e seu corpo
se move
e os seios
estĂŁo no tanque
dentro da sombra

tomo-a
mil vezes
e lhe sopro na boca
o ar
que esfriou na distância
que separa
a fruteira de cristal
dos lábios
que a moldaram

Soneto Da Ilha

Eu deitava na praia, a cabeça na areia
Abria as pernas aos alĂ­sios e ao luar
Tonto de maresia; e a mão da maré cheia
Vinha coçar meus pés com seus dedos de mar.

Longos êxtases tinha; amava a Deus em ânsia
E a uma nudez qualquer ávida de abandono
Enquanto ao longe a clarineta da distância
Era tambĂŞm um mar que me molhava o sono.

E adormecia assim, sonhando, vendo e ouvindo
Pulos de peixes, gritos frouxos, vozes rindo
E a lua virginal arder no plexo

Estelar, e o marulho das ondas sucessivas
Da monção, até que alguma entre as mais vivas
Mansa, viesse desaguar pelo meu sexo.

A Inutilidade do Viajar

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? Não é isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paixões eróticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. Não faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas detém a atenção momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma criança que pasma perante algo que nunca viu! Além disso, o contínuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (já de si considerável!) do espírito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, vão-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar dá-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos formações montanhosas desconhecidas, planícies habitualmente não visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgotáveis; proporciona-nos a observação de algum rio de características invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Verão, o Tigre, que desaparece à nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubrações dos poetas, contorcendo-se em incontáveis sinuosidades,

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