Poemas sobre Anjos de Miguel Torga

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Poemas de anjos de Miguel Torga. Leia este e outros poemas de Miguel Torga em Poetris.

Natal Divino

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadĂĄver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

ExercĂ­cio Espiritual

Ouço-os de todo o lado.
Eu Ă© que sou assim.
Eu Ă© que sou assado,
Eu Ă© que sou o anjo revoltado,
Eu Ă© que nĂŁo tenho santidade…

Quando, afinal, ninguém
PÔe nos ombros a capa da humildade,
E vem.

InocĂȘncia

Vou aqui como um anjo, e carregado
De crimes!
Com asas de poeta voa-se no cĂ©u…
De tudo me redimes,
PenitĂȘncia
De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irmĂŁos,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as mĂŁos.

Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vĂŁo ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
De virtudes teologais,
Que sĂŁo trĂȘs,
E dos pecados mortais,
Que sĂŁo sete,
Quando a terra nĂŁo repete
Que sĂŁo mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
E o das ternuras lĂșcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, Ă  mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raĂ­zes no chĂŁo
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caĂ­do
Do tal CĂ©u que Deus governa;
De ser um monstro saĂ­do
Do buraco mais fundo da caverna.

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