Nas Ăguas Vosso Amor Ponde
A palavra que te disse,
talvez por ser tĂŁo pequena,
em tais desprezos perdeu-se
que nĂŁo deixou nem pena.Murmurei-a a uma cisterna
de turvas ĂĄguas antigas
e foi-se de cova em cova
em mĂșltiplas cantigas.Amadores deste mundo,
nas ĂĄguas vosso amor ponde;
que elas vos darĂŁo resposta,
quando ninguém responde.
Poemas sobre Cantigas de CecĂlia Meireles
3 resultadosCanção Póstuma
Fiz uma canção para dar-te;
porém tu jå estavas morrendo.
A Morte Ă© um poderoso vento.
E Ă© um suspiro tĂŁo tĂmido, a Arte…Ă um suspiro tĂmido e breve
como o da respiração diåria.
Choro de pomba. E a Morte Ă© uma ĂĄguia
cujo grito ninguém descreve.Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estĂĄs de ouvidos fechados
para os meus lĂĄbios inexatos,
â atento a um canto mais profundo.E estou como alguĂ©m que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a lĂĄgrima da sua face.E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde.
E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas.Por isso Ă© tĂŁo desesperada
a pequena, humana cantiga.
Talvez dure mais do que a vida.
Mas Ă Morte nĂŁo diz mais nada.
A Amiga Deixada
Antiga
cantiga
da amiga
deixada.Musgo da piscina,
de uma ĂĄgua tĂŁo fina,
sobre a qual se inclina
a lua exilada.Antiga
cantiga
da amiga
chamada.Chegara tĂŁo perto!
Mas tinha, decerto,
seu rosto encoberto…
Cantava â mais nada.Antiga
cantiga
da amiga
chegada.PĂ©rola caĂda
na praia da vida:
primeiro, perdida
e depois â quebrada.Antiga
cantiga
da amiga
calada.Partiu como vinha,
leve, alta, sozinha,
â giro de andorinha
na mĂŁo da alvorada.Antiga
cantiga
da amiga
deixada.