Poemas sobre Cantigas de CecĂ­lia Meireles

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Poemas de cantigas de CecĂ­lia Meireles. Leia este e outros poemas de CecĂ­lia Meireles em Poetris.

Nas Águas Vosso Amor Ponde

A palavra que te disse,
talvez por ser tĂŁo pequena,
em tais desprezos perdeu-se
que nĂŁo deixou nem pena.

Murmurei-a a uma cisterna
de turvas ĂĄguas antigas
e foi-se de cova em cova
em mĂșltiplas cantigas.

Amadores deste mundo,
nas ĂĄguas vosso amor ponde;
que elas vos darĂŁo resposta,
quando ninguém responde.

Canção Póstuma

Fiz uma canção para dar-te;
porém tu jå estavas morrendo.
A Morte Ă© um poderoso vento.
E Ă© um suspiro tĂŁo tĂ­mido, a Arte…

É um suspiro tímido e breve
como o da respiração diåria.
Choro de pomba. E a Morte Ă© uma ĂĄguia
cujo grito ninguém descreve.

Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estĂĄs de ouvidos fechados
para os meus lĂĄbios inexatos,
— atento a um canto mais profundo.

E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a lĂĄgrima da sua face.

E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde.
E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas.

Por isso Ă© tĂŁo desesperada
a pequena, humana cantiga.
Talvez dure mais do que a vida.
Mas Ă  Morte nĂŁo diz mais nada.

A Amiga Deixada

Antiga
cantiga
da amiga
deixada.

Musgo da piscina,
de uma ĂĄgua tĂŁo fina,
sobre a qual se inclina
a lua exilada.

Antiga
cantiga
da amiga
chamada.

Chegara tĂŁo perto!
Mas tinha, decerto,
seu rosto encoberto…
Cantava — mais nada.

Antiga
cantiga
da amiga
chegada.

PĂ©rola caĂ­da
na praia da vida:
primeiro, perdida
e depois — quebrada.

Antiga
cantiga
da amiga
calada.

Partiu como vinha,
leve, alta, sozinha,
— giro de andorinha
na mĂŁo da alvorada.

Antiga
cantiga
da amiga
deixada.