Canção da Inocência Perdida
1
O que a minha mĂŁe dizia
NĂŁo pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto nĂŁo vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.2
Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas sĂł ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
C’mo sem ninguĂ©m lhe tocar.3
Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos CĂ©us, como uma
BabilĂłnia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada Ă roda, Ă roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».4
Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece Ă roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!5
Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Poemas sobre CĂ©u de Bertolt Brecht
4 resultadosLouvor do Esquecimento
Bom Ă© o esquecimento.
SenĂŁo como Ă© que
O filho deixaria a mĂŁe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retĂ©m para os experimentar.Ou como havia o discĂpulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discĂpulo tem de se pĂ´r a caminho.Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construĂram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.O fogĂŁo aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
NĂŁo reconhece a broa de pĂŁo.Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhĂŁ?
Como Ă© que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.Tradução de Paulo Quintela
Nunca te Amei Tanto
Nunca te amei tanto, ma soeur,
Como quando de ti parti naquele pĂ´r-de-sol.
O bosque engoliu-me, o bosque azul, ma soeur,
Sobre que já pousavam as estrelas pálidas a oeste.Não me ri nem um pouco, nada, ma soeur,
Eu que a brincar ia ao encontro dum destino escuro —
Enquanto os rostos já atrás de mim
Devagar empalideciam no anoitecer do bosque azul.
Tudo era belo naquele anoitecer Ăşnico, ma soeur,
Nunca mais depois e nunca antes assim —
Verdade Ă©: sĂł me ficaram as grandes aves
Que ao anoitecer têm fome no céu escuro.
O Horror de ser Pobre
Risco c’um traço
(Um traço fino, sem azedume)
Todos os que conheço, eu mesmo incluĂdo.
Para todos estes nĂŁo me verĂŁo
Nunca mais
Olhar com azedume.O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem água de banho, solidão e tabaco
Nada há que exigir.
O desprezo do pĂşblico
Arruina o espinhaço.
O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir.
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
NĂŁo o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.Tradução de Paulo Quintela