Ăs Vezes Entre a Tormenta
Ăs vezes entre a tormenta,
quando jĂĄ umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.E Ă s vezes entre o torpor
que nĂŁo Ă© tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que nĂŁo conhece o langor.E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito estĂĄ feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.Porque verdadeiramente
sentir Ă© tĂŁo complicado
que sĂł andando enganado
Ă© que se crĂȘ que se sente.Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo Ă© chuvas que orvalham
folhas caĂdas que secam.
Poemas sobre Chuva de Fernando Pessoa
4 resultadosChove. HĂĄ SilĂȘncio
Chove. HĂĄ silĂȘncio, porque a mesma chuva
NĂŁo faz ruĂdo senĂŁo com sossego.
Chove. O cĂ©u dorme. Quando a alma Ă© viĂșva
Do que nĂŁo sabe, o sentimento Ă© cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…TĂŁo calma Ă© a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que nĂŁo Ă© chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…NĂŁo paira vento, nĂŁo hĂĄ cĂ©u que eu sinta.
Chove longĂnqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…
Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende Ă© mais chuva a bater na vidraça…Alegra-me ouvir a chuva porque ela Ă© o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora sĂŁo o som da chuva ouvido por dentro …O esplendor do altar-mor Ă© o eu nĂŁo poder quase ver os montes
AtravĂ©s da chuva que Ă© ouro tĂŁo solene na toalha do altar…Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a ĂĄgua no fato de haver coro…A missa Ă© um automĂłvel que passa
AtravĂ©s dos fiĂ©is que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
SĂșbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruĂdo da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre ågua perder-se ao longe
Com o som de rodas de automĂłvel…E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa …
Chove ? Nenhuma Chuva Cai…
Chove? Nenhuma chuva cai…
EntĂŁo onde Ă© que eu sinto um dia
Em que ruĂdo da chuva atrai
A minha inĂștil agonia ?Onde Ă© que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e nĂŁo posso,
Ă cĂ©u azul, chamar-te meu…E o escuro ruĂdo da chuva
Ă constante em meu pensamento.
Meu ser Ă© a invisĂvel curva
Traçada pelo som do vento…E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro… E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.Ah, na minha alma sempre chove.
HĂĄ sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim…Os cĂ©us da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em Ăłdio Ă Ăąnsia
PÔe dias de ilhas vistas do convésNo meu cansaço perdido entre os gelos,