Eu Sou do Tamanho do que Vejo
Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia Ă© tĂŁo grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E nĂŁo, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida Ă© mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.Na cidade as grandes casas fecham a vista Ă chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa Ăşnica riqueza Ă© ver.
Poemas sobre Cidade de Alberto Caeiro
3 resultadosOntem Ă Tarde um Homem das Cidades
Ontem Ă tarde um homem das cidades
Falava Ă porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que tĂŞm fome,
E dos ricos, que sĂł tĂŞm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O Ăłdio que ele sentia, e a compaixĂŁo
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os
outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais Ă© perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmĂşrio longĂnquo dos chocalhos
A esse entardecer
NĂŁo parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem Ă missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
Cesário Verde
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai
andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos …Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pĂ´r plantas em jarros…