Ă€ Beleza
NĂŁo tens corpo, nem pátria, nem famĂlia,
NĂŁo te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rĂłi.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem famĂlia,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Poemas sobre Deuses de Miguel Torga
4 resultadosFrustração
Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
SĂł que nĂŁo houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
SĂŁo ironias
Dos deuses desleais.
PrincĂpio
NĂŁo tenho deuses. Vivo
Desamparado.
Sonhei deuses outrora,
Mas acordei.
Agora
Os acĂşleos sĂŁo versos,
E tacteiam apenas
A ilusĂŁo de um suporte.
Mas a inércia da morte,
O descanso da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma,
Também me não diz nada.
A paz possĂvel Ă© nĂŁo ter nenhuma.
Cântico de Humanidade
Hinos aos deuses, nĂŁo.
Os homens Ă© que merecem
Que se lhes cante a virtude.
Bichos que lavram no chĂŁo,
Actuam como parecem,
Sem um disfarce que os mude.Apenas se os deuses querem
Ser homens, nĂłs os cantemos.
E Ă soga do mesmo carro,
Com os aguilhões que nos ferem,
Nós também lhes demonstremos
Que sĂŁo mortais e de barro.