Poemas sobre Dor de Alberto Caeiro

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Poemas de dor de Alberto Caeiro. Leia este e outros poemas de Alberto Caeiro em Poetris.

Ninguém o Tinha Amado, Afinal

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe pira tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu.
Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
estĂŁo presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco
nos pulmÔes)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor,
uma liberdade
no peito.

Da Mais Alta Janela da Minha Casa

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E nĂŁo estou alegre nem triste.
Esse Ă© o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrĂĄ-los a todos
Porque nĂŁo posso fazer o contrĂĄrio
Como a flor nĂŁo pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a ĂĄrvore esconder que dĂĄ fruto.
Ei-los que vĂŁo jĂĄ longe como que na diligĂȘncia
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os terĂĄ?
Quem sabe a que mĂŁos irĂŁo?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha ĂĄgua era nĂŁo ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a ĂĄrvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pĂł dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua ĂĄgua Ă© sempre a que foi
sua.
Passo e fico,

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