Rimance
Onde Ă© que dĂłi na minha vida,
para que eu me sinta tĂŁo mal?
quem foi que me deixou ferida
de ferimento tĂŁo mortal?Eu parei diante da paisagem:
e levava uma flor na mĂŁo.
Eu parei diante da paisagem
procurando um nome de imagem
para dar à minha canção.Nunca existiu sonho tão puro
como o da minha timidez.
Nunca existiu sonho tĂŁo puro,
nem também destino tão duro
como o que para mim se fez.Estou caĂda num vale aberto,
entre serras que nĂŁo tĂŞm fim.
Estou caĂda num vale aberto:
nunca ninguém passará perto,
nem terá notĂcias de mim.Eu sinto que nĂŁo tarda a morte,
e só há por mim esta flor;
eu sinto que nĂŁo tarda a morte
e nĂŁo sei como Ă© que suporte
tanta solidĂŁo sem pavor.E sofro mais ouvindo um rio
que ao longe canta pelo chĂŁo,
que deve ser lĂmpido e frio,
mas sem dó nem recordação,
como a voz cujo murmĂşrio
morrerá com o meu coração…
Poemas sobre Flores de CecĂlia Meireles
8 resultadosEpitáfio
Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vĂŁ desintegrados,
em pequenas flores tornados.Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
Ăł simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!E nĂŁo sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mĂŁo dada
pelas praias da madrugada.
Atitude
Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.O Ăşltimo passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.Meus olhos estarĂŁo sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
O Que Amamos Está Sempre Longe de Nós
O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos – que nĂŁo sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
sĂł para em nossa morte estar durando sempre.Como as ervas do chĂŁo, como as ondas do mar,
os acasos se vĂŁo cumprindo e vĂŁo cessando.
Mas, sem acaso, o amor lĂmpido e exacto jaz.NĂŁo necessita nada o que em si tudo ordena:
cuja tristeza unicamente pode ser
o equĂvoco do tempo, os jogos da cegueiracom setas negras na escuridĂŁo.
Os Homens Gloriosos
Sentei-me sem perguntas Ă beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mĂŁos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos…
pegajosas de lodo e sangue denso.Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!Antes o murmĂşrio da dor, esse murmĂşrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pĂł que fui!
Reduze a pĂł minha memĂłria!Reduze a pĂł
a memĂłria dos homens,
Jornal, longe
Que faremos destes jornais, com telegramas, notĂcias,
anĂşncios, fotografias, opiniões…?Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
e o sol empalidece suas letras infinitas.Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
“Os jornais servem para fazer embrulhos”.E Ă© uma das raras vezes em que todos estĂŁo de acordo.
Guerra
Tanto Ă© o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.Tanto Ă© o sangue
que atĂ© a lua se levanta horrĂvel,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.Tanta Ă© a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estĂŁo por ali como tábuas sem uso.Oh, os dedos com alianças perdidos na lama…
Os olhos que já nĂŁo pestanejam com a poeira…
As bocas de recados perdidos…
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes…Tanta Ă© a morte
que sĂł as almas formariam colunas,
as almas desprendidas… — e alcançariam as estrelas.E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nĂłs e vĂłs, imunes,
chorando,
SugestĂŁo
Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.Flor que se cumpre,
sem pergunta.Onda que se esforça,
por exercĂcio desinteressado.Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.Também como este ar da noite:
sussurrante de silĂŞncios,
cheio de nascimentos e pétalas.Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E Ă nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.Ă€ cigarra, queimando-se em mĂşsica,
ao camelo que mastiga sua longa solidĂŁo,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocĂŞncia para a morte.Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.NĂŁo como o resto dos homens.