Aleluia
Era a mulher â a mulher nua e bela,
Sem a impostura inĂștil do vestido
Era a mulher, cantando ao meu ouvido,
Como se a luz se resumisse nela…
Mulher de seios duros e pequenos
Com uma flor a abrir em cada peito.
Era a mulher com bĂblicos acenos
E cada qual para os meus dedos feito.
Era o seu corpo â a sua carne toda.
Era o seu porte, o seu olhar, seus braços:
Luar de noite e manancial de boda,
Boca vermelha de sorrisos lassos.
Era a mulher â a fonte permitida
Por Deus, pelos Poetas, pelo mundo…
Era a mulher e o seu amor fecundo
Dando a nĂłs, homens, o direito Ă vida!
Poemas sobre Fonte de Pedro Homem de Melo
5 resultadosCanção à Ausente
Para te amar ensaiei os meus lĂĄbios…
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lĂĄbios!Para tocar-te ensaiei os meus dedos…
Banhei-os na ĂĄgua lĂmpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silĂȘncio…
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!E a vida foi passando, foi passando…
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.A vida foi passando, foi passando…
E nunca mais vieste!
Eternidade
A minha eternidade neste mundo
Sejam vinte anos sĂł, depois da morte!
O vento, eles passados, que, enfim, corte
A flor que no jardim plantei tĂŁo fundo.As minhas cartas leia-as quem quiser!
Torne-se pĂșblico o meu pensamento!
E a terra a que chamei â minha mulher â
A outros dĂȘ seu lĂĄbio sumarento!A outros abra as fontes do prazer
E teça o leito em pétalas e lume!
A outros dĂȘ seus frutos a comer
E em cada noite a outros dĂȘ perfume!O globo tem dois pĂłlos: Ontem e hoje.
Dizemos sĂł: â Meu pai! ou sĂł:â Meu filho!
O resto Ă© baile que nĂŁo deixa trilho.
Rosto sem carne; fixidez que foge.Venham beijar-me a campa os que me beijam
Agora, frĂĄgeis, frĂvolos e humanos!
Os que me virem, morto, ainda me vejam
Depois da morte, vivo, ainda vinte anos!Nuvem subindo, anis que se evapora…
Assim um dia passe a minha vida!
Mas, antes, que uma lĂĄgrima sentida
Traga a certeza de que alguém me chora!Adro!
Aliança
Por tudo quanto sei, mas nĂŁo sabia,
(Feliz de quem um dia ainda o souber!)
Por essa estrela branca em noite fria!
Anunciação, talvez, de poesia…
Por ti, minha mulher!Por esse homem que sou, mas que nĂŁo era,
Vendo na morte a vida que vier!
Por teu sorriso em minha vida austera.
Anunciação, talvez de Primavera…
Por ti, minha mulher!Pelo caminho humano a que vieste
Com fĂ© no amor. â Seja o que Deus quiser!
Por certa fonte abrindo a rocha agreste…
Por esse filho loiro que me deste!
Por ti, minha mulher!Pelo perdĂŁo que espalho aos quatro ventos,
De antemĂŁo cego ao mal que me trouxer
Despeitos surdos, pérfidos momentos;
Pelos teus passos, junto aos meus, mais lentos…
Por ti, minha mulher!Nada mais digo. Nada. Que nĂŁo posso!
Mas dirĂĄ mais do que eu quem nĂŁo disser
Como eu?: â AvĂ©-Maria… Padre-Nosso…
Por tudo quanto Ă© meu (e que Ă© tĂŁo nosso!)
Por ti, minha mulher!
Povo
Povo que lavas no rio,
Que vais Ă s feiras e Ă tenda,
Que talhas com teu machado
As tĂĄbuas do meu caixĂŁo,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chĂŁo sagrado,
Mas a tua vida, nĂŁo!Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericĂŁo!
Ă natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, nĂŁo!Fui ter Ă mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mĂŁo em mĂŁo…
Ăgua pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!ProcissÔes de praia e monte,
Areais, pĂncaros, passos
AtrĂĄs dos quais os meus vĂŁo!
Que Ă© dos cĂąntaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, nĂŁo!Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecĂȘ-las…
Mas a tua vida, nĂŁo!Subi Ă s frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estĂŁo.