Sou o fantasma de um rei
Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado…
Minha histĂłria nĂŁo sei…
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado…Eu nĂŁo sei o que sou.
NĂŁo sei se sou o sonho
Que alguĂ©m do outro mundo esteja tendo…
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa histĂłria que um deus está relendo…
Poemas sobre Ideias de Fernando Pessoa
6 resultadosDa Minha Idéia do Mundo
Da minha idéia do mundo
CaĂ…
Vácuo além do profundo,
Sem ter Eu nem Ali…Vácuo sem si-prĂłprio, caos
De ser pensado como ser…
Escada absoluta sem degraus…
VisĂŁo que se nĂŁo pode ver…AlĂ©m-Deus! AlĂ©m-Deus! Negra calma…
ClarĂŁo do Desconhecido…
Tudo tem outro sentido, Ăł alma,
Mesmo o ter-um-sentido…
De Quem Ă© o Olhar
De quem Ă© o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
NĂŁo os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?Ă€s vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim prĂłprio mesmo
Em alma mal existo,Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.Se acenderem as velas
E nĂŁo houver apenas
A vaga luz de fora —
NĂŁo sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que Ă© minha vida agora!Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido Ă© nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.
As Horas pela Alameda
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongadaSob o azular do luar…
E ouve-se no ar a expirar –A expirar mas nunca expira –
Uma flauta que delira,Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquilaPelo ar a ondear e a ir…
SilĂŞncio a tremeluzir…
Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E sĂşbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é sério, e correr?
O que é está-lo eu a ver?Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, Ă terra e aos cĂ©us…E sĂşbito encontro Deus.
Brilha uma Voz na Noute…
Brilha uma voz na noute
De dentro de Fora ouvi-a…
Ă“ Universo, eu sou-te…
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!Cinzas de idéia e de nome
Em mim, e a voz:Ă“ mundo,
Sermente em ti eu sou-me…
Mero eco demim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.