Hora
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta – por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos cĂrculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitĂĄrias,
As minhas mĂŁos estĂŁo cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.E de novo caminho para o mar.
Poemas sobre Imagem de Sophia de Mello Breyner Andresen
4 resultadosTĂŁo Grande Dor
“TĂŁo grande dor para tĂŁo pequeno povo” palavras de um timorense Ă RTP
Timor fragilĂssimo e distante
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha“SĂąndalo flor bĂșfalo montanha
Cantos danças ritos
E a pureza dos gestos ancestrais”Em frente ao pasmo atento das crianças
Assim contava o poeta Rui Cinatti
Sentado no chĂŁo
Naquela noite em que voltara da viagemTimor
Dever que nĂŁo foi cumprido e que por isso dĂłiDepois vieram notĂcias desgarradas
Raras e confusas
ViolĂȘncias mortes crueldade
E anos apĂłs ano
Ia crescendo sempre a atrocidade
E dia a dia – espanto prodĂgio assombro –
Cresceu a valentia
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanhaTimor cercado por um bruto silĂȘncio
Mais pesado e mais espesso do que o muro
De Berlim que foi sempre falado
Porque nĂŁo era um muro mas um cerco
Que por segundo cerco era cercadoO cerco da surdez dos consumistas
TĂŁo cheios de jornais e de notĂciasMas como se fosse o milagre pedido
Pelo rio da prece ao som das balas
As imagens do massacre foram salvas
As imagens romperam os cercos do silĂȘncio
Irromperam nos Ă©crans e os surdos viram
A evidĂȘncia nua das imagens
Che Guevara
Contra ti se ergueu a prudĂȘncia dos inteligentes e o arrojo
[dos patetas
A indecisĂŁo dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforraDe poster em poster a tua imagem paira na sociedade de
[consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das
[igrejasPorém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente Ă noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece
Aqui
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que Ă© jogo e tudo o que Ă© passagem,
No interior das coisas canto nua.Aqui livre sou eu â eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.NĂŁo por aquilo que sĂł atravessei,
NĂŁo pelo meu rumor que sĂł perdi,
NĂŁo pelos incertos actos que vivi,Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.