Carta Ă Minha Filha
Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metĂĄfora dada
pela infĂąncia, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausĂȘncia
de razĂŁo nessa cadeia em sonho de novelo.Hoje, nesta noite tĂŁo quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirĂĄ.Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda Ă s vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas â Ă© sempre
olhar-te amor. Mas Ă© tambĂ©m desordenar-te Ă
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontĂnua
de mentiras, em carinho de verso.E o que queria dizer-te Ă© dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
Poemas sobre Junho
3 resultadosUma Cidade
Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerĂąnios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodĂŁo, esporas
de ĂĄgua e flancos
de granito.
Uma cidade
pode ser o nome
dum paĂs, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-Ăris Ă janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnĂłlias
ao crepĂșsculo, um balĂŁo
acesonuma noite
de junho.Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.
Recordam-se VocĂȘs do Bom Tempo dâOutrora
(Dedicatória de introdução a «A Musa em Férias»)
Recordam-se vocĂȘs do bom tempo dâoutrora,
Dum tempo que passou e que nĂŁo volta mais,
Quando Ăamos a rir pela existĂȘncia fora
Alegres como em Junho os bandos dos pardais?
Câroava-nos a fronte um diadema dâaurora,
E o nosso coração vestido de esplendor
Era um divino Abril radiante, onde as abelhas
Vinham sugar o mel na balsĂąmina em flor.
Que doiradas cançÔes nossas bocas vermelhas
NĂŁo lançaram entĂŁo perdidas pelo ar!âŠ
Mil quimeras de glĂłria e mil sonhos dispersos,
CançÔes feitas sem versos,
E que nĂłs nunca mais havemos de cantar!
Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as espâranças
São åureos colibris das regiÔes da alvorada,
Que buscam para ninho os peitos das crianças.
E quando a neve cai jĂĄ sobre a nossa estrada,
E quando o Inverno chega Ă nossa alma,entĂŁo
Os pobres colibris, coitados, sentem frio,
E deixam-nos a nós o coração vazio,
Para fazer o ninho em outro coração.
Meus amigos, a vida Ă© um Sol que chega ao cĂșmulo
Quando cantam em nós essas cançÔes celestes;