O Homem e o Mar
Homem livre, o oceano Ă© um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu Ăntimo sentir, teu coração ardente.Gostas de te banhar na tua prĂłpria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mĂstica linguagem.VĂłs sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!E há sĂ©culos mil, sĂ©c’ulos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n’uma luta selvagem,
De tal modo gostais n’uma luta selvagem,
Eternos lutador’s Ăł irmĂŁos implacáveis!Tradução de Delfim GuimarĂŁes
Poemas sobre Mil de Charles Baudelaire
2 resultadosTĂ©dio
Tenho as recordações d’um velho milenário!
Um grande contador, um prodigioso armário,
Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais,
Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,
Mais segredos nĂŁo tem do que eu na mente abrigo.
Meu cer’bro faz lembrar descomunal jazigo;
Nem a vala comum encerra tanto morto!— Eu sou um cemitério estranho, sem conforto,
Onde vermes aos mil — remorsos doloridos,
Atacam de pref’rĂŞncia os meus mortos queridos.
Eu sou um toucador, com rosas desbotadas,
Onde jazem no chĂŁo as modas despresadas,
E onde, sĂłs, tristemente, os quadros de Boucher
Fuem o doce olor d’um frasco de GellĂ©.Nada pode igualar os dias tormentosos
Em que, sob a pressĂŁo de invernos rigorosos,
O TĂ©dio, fruto inf’liz da incuriosidade,
Alcança as proporções da Imortalidade.— Desde hoje, não és mais, ó matéria vivente,
Do que granito envolto em terror inconsciente.
A emergir d’um Saarah movediço, brumoso!
Velha esfinge que dorme um sono misterioso,
Esquecida, ignorada, e cuja face fria
Só brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia!Tradução de Delfim Guimarães