Namorados do Mirante
Eles eram mais antigos que o silĂȘncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas sĂșbitas estĂĄtuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam Ă s origens â a realidade
Neles se fez, de substĂąncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espĂ©cie â tudo mais tinha morrido.
CaĂam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galĂĄxias da vida no infinito.Eles eram mais antigos que o silĂȘncio…
Poemas sobre Milénio
5 resultadosOde a LĂdia
Esta sĂșbita chuva que desaba
pela pele morena
de teu rosto
por teu riso por teus ombros
pelos teus longos
cabelos
cai na terra
â ouve bem âcom o peso, o
doce peso de miléniosPois verdade é que outra
Ă© a ĂĄgua
mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro hĂșmido
da terra, mesmo
nas ĂĄrvores
o ĂĄspero, esperado canto
de verĂŁoTudo, nada mudou
Pois verdade Ă© que outra
Ă© a ĂĄgua
mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro hĂșmido
da terra, mesmo
nas ĂĄrvores
o ĂĄspero, esperado canto
de verĂŁoTudo, nada mudou
Bebe pois desta ĂĄgua
bebe
bebe com todo o teu corpo
até que toda te farte
bebe
até que te embriague
a milenar
experiĂȘncia
do planetaBebe e
(sĂĄbia)
colhe nas mĂŁos o momento
que esvoaça
â este breve momento em que
como duas crianças
somos
e amamos
Alimentar-me de Ti
De alimentar-me de Ti como Jonas do ventre da baleia
De inserir-me em teus braços chicoteados de infinitos horizontes
De beijar-Te o rosto como a uma chaga de luz
De amar-Te de um amor qual nunca amado
Na humana carne em que temerĂĄrio confio
Por uma humanidade possĂvel que o impossĂvel nĂŁo desmente
Aceito inscrever-me a fogo no teu Rosto
E ser vomitado ao fim do terceiro dia
Na cruz de sol de todos os milénios futuros
Os Velhos
Todos nasceram velhos â desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre â sempre
assim como estĂŁo hoje
e nĂŁo deixarĂŁo nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do JuĂzo Final.
Os mais velhos tĂȘm 100, 200 anos
e lĂĄ se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
nĂŁo menos de 50 â enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proĂbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. NĂŁo sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarĂŁo
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindĂĄvel de monossĂlabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vĂȘem passar. NĂŁo me dĂŁo confiança.
Confiança! Confiança!
DĂĄdiva impensĂĄvel
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritårios,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e sĂł, atravessando
a floresta de velhos.
Soneto de Natal
«E o terceiro Anjo derramou a sua taça nos rios
e nas fontes, ficando a ågua da cor do sangue.»
Apocalipse, 16:4NĂŁo anuncio a paz, mas sim a guerra.
Um. Anjo vingador comigo vem.
Hå dois milénios que percorro a Terra
repetindo a mensagem de Belém.O coração humano endureceu
à força de sentir a Fé perdida.
E o espĂrito do Bem? Ensurdeceu
no furacão das ambiçÔes da vida.Por isso trago um Anjo vingador
para ferir de morte a semelhança
do lobo disfarçado de cordeiro:â Que se cuide quem nĂŁo sentir Amor
pois matarå em si essa criança
inocente que um dia foi primeiro.