Poemas sobre Milénio

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Poemas de milénio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silĂȘncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas sĂșbitas estĂĄtuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam às origens — a realidade
Neles se fez, de substĂąncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espĂ©cie — tudo mais tinha morrido.
CaĂ­am lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galĂĄxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silĂȘncio…

Ode a LĂ­dia

Esta sĂșbita chuva que desaba
pela pele morena
de teu rosto
por teu riso por teus ombros
pelos teus longos
cabelos
cai na terra
— ouve bem —

com o peso, o
doce peso de milénios

Pois verdade Ă© que outra
Ă© a ĂĄgua
mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro hĂșmido
da terra, mesmo
nas ĂĄrvores
o ĂĄspero, esperado canto
de verĂŁo

Tudo, nada mudou

Pois verdade Ă© que outra
Ă© a ĂĄgua
mas a mesma
(escorrendo pela
gloriosa nudez
de teu corpo)
mesmo o cheiro hĂșmido
da terra, mesmo
nas ĂĄrvores
o ĂĄspero, esperado canto
de verĂŁo

Tudo, nada mudou

Bebe pois desta ĂĄgua
bebe
bebe com todo o teu corpo
até que toda te farte
bebe
até que te embriague
a milenar
experiĂȘncia
do planeta

Bebe e
(sĂĄbia)
colhe nas mĂŁos o momento
que esvoaça
— este breve momento em que
como duas crianças
somos
e amamos

Alimentar-me de Ti

De alimentar-me de Ti como Jonas do ventre da baleia
De inserir-me em teus braços chicoteados de infinitos horizontes
De beijar-Te o rosto como a uma chaga de luz
De amar-Te de um amor qual nunca amado
Na humana carne em que temerĂĄrio confio
Por uma humanidade possĂ­vel que o impossĂ­vel nĂŁo desmente
Aceito inscrever-me a fogo no teu Rosto
E ser vomitado ao fim do terceiro dia
Na cruz de sol de todos os milénios futuros

Os Velhos

Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estĂŁo hoje
e nĂŁo deixarĂŁo nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do JuĂ­zo Final.
Os mais velhos tĂȘm 100, 200 anos
e lĂĄ se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
nĂŁo menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proĂ­be. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. NĂŁo sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarĂŁo
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindĂĄvel de monossĂ­labos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vĂȘem passar. NĂŁo me dĂŁo confiança.
Confiança! Confiança!
DĂĄdiva impensĂĄvel
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritårios,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e sĂł, atravessando
a floresta de velhos.

Soneto de Natal

«E o terceiro Anjo derramou a sua taça nos rios
e nas fontes, ficando a ågua da cor do sangue.»
Apocalipse, 16:4

NĂŁo anuncio a paz, mas sim a guerra.
Um. Anjo vingador comigo vem.
Hå dois milénios que percorro a Terra
repetindo a mensagem de Belém.

O coração humano endureceu
à força de sentir a Fé perdida.
E o espĂ­rito do Bem? Ensurdeceu
no furacão das ambiçÔes da vida.

Por isso trago um Anjo vingador
para ferir de morte a semelhança
do lobo disfarçado de cordeiro:

— Que se cuide quem não sentir Amor
pois matarå em si essa criança
inocente que um dia foi primeiro.