Ă tĂŁo Suave a Fuga deste Dia
Ă tĂŁo suave a fuga deste dia,
LĂdia, que nĂŁo parece, que vivemos.
Sem dĂșvida que os deuses
Nos são gratos esta hora,Em paga nobre desta fé que temos
Na exilada verdade dos seus corpos
Nos dĂŁo o alto prĂȘmio
De nos deixarem serConvivas lĂșcidos da sua calma,
Herdeiros um momento do seu jeito
De viver toda a vida
Dentro dum sĂł momento,Dum sĂł momento, LĂdia, em que afastados
Das terrenas angĂșstias recebemos
OlĂmpicas delĂcias
Dentro das nossas almas.E um sĂł momento nos sentimos deuses
Imortais pela calma que vestimos
E a altiva indiferença
Ăs coisas passageirasComo quem guarda a c’roa da vitĂłria
Estes fanados louros de um sĂł dia
Guardemos para termos,
No futuro enrugado,Perene Ă nossa vista a certa prova
De que um momento os deuses nos amaram
E nos deram uma hora
NĂŁo nossa, mas do Olimpo.
Poemas sobre Momentos de Ricardo Reis
10 resultadosNada Nos Falta, porque Nada Somos
Ao longe os montes tĂȘm neve ao sol,
Mas Ă© suave jĂĄ o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.Hoje, Neera, nĂŁo nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
NĂŁo esperamos nada
E temos frio ao sol.Mas tal como Ă©, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.
Que Pesa o EscrĂșpulo do Pensamento?
Azuis os montes que estĂŁo longe param.
De eles a mim o vĂĄrio campo ao vento, Ă brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
DĂ©bil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrĂșpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vĂĄrio, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Ăs fĂ©rias em que existo.
Certeza Ănica Ă© o Mal Presente
Pois que nada que dure, ou que, durando,
Valha, neste confuso mundo obramos,
E o mesmo Ăștil para nĂłs perdemos
Conosco, cedo, cedo.O prazer do momento anteponhamos
Ă absurda cura do futuro, cuja
Certeza Ășnica Ă© o mal presente
Com que o seu bem compramos.AmanhĂŁ nĂŁo existe. Meu somente
Ă o momento, eu sĂł quem existe
Neste instante, que pode o derradeiro
Ser de quem finjo ser?
Deixai a Vida aos Crentes Mais Antigos
VĂłs que, crentes em Cristos e Marias,
Turvais da minha fonte as claras ĂĄguas
SĂł para me dizerdes
Que hå åguas de outra espécieBanhando prados com melhores horas
Dessas outras regiÔes pra que falar-me
Se estas ĂĄguas e prados
SĂŁo de aqui e me agradam?Esta realidade os deuses deram
E para bem real a deram externa.
Que serĂŁo os meus sonhos
Mais que a obra dos deuses?Deixai-me a Realidade do momento
E os meus deuses tranqĂŒilos e imediatos
Que nĂŁo moram no Vago
Mas nos campos e rios.Deixai-me a vida ir-se pagĂŁmente
Acompanhada pelas avenas tĂȘnues
Com que os juncos das margens
Se confessam de PĂŁ.Vivei nos vossos sonhos e deixai-me
O altar imortal onde Ă© meu culto
E a visĂvel presença
Os meus prĂłximos deuses.InĂșteis procos do melhor que a vida,
Deixai a vida aos crentes mais antigos
Que a Cristo e a sua cruz
E Maria chorando.Ceres, dona dos campos, me console
E Apolo e VĂȘnus,
Vem Sentar-te Comigo, LĂdia, Ă Beira do Rio
Vem sentar-te comigo, LĂdia, Ă beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e nĂŁo fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.Desenlacemos as mĂŁos, porque nĂŁo vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nĂŁo gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.Sem amores, nem ódios, nem paixÔes que levantam a voz,
Nem invejas que dĂŁo movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quisĂ©ssemos, trocar beijos e abraços e carĂcias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento â
Este momento em que sossegadamente nĂŁo cremos em nada,
Colhe o Dia, porque Ăs Ele
Uns, com os olhos postos no passado,
VĂȘem o que nĂŁo vĂȘem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vĂȘem
O que nĂŁo pode ver-se.Por que tĂŁo longe ir pĂŽr o que estĂĄ perto â
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta Ă© a hora, este o momento, isto
Ă quem somos, e Ă© tudo.Perene flui a interminĂĄvel hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque Ă©s ele.
Sofro, LĂdia, do Medo do Destino
Sofro, LĂdia, do medo do destino.
A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.Tudo quanto me ameace de mudar-me
Para melhor que seja, odeio e fujo.
Deixem-me os deuses minha vida sempre
Sem renovarMeus dias, mas que um passe e outro passe
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo
Para a velhice como um dia entra
No anoitecer.
Uma ApĂłs Uma as Ondas Apressadas
Uma ApĂłs Uma
Uma apĂłs uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva ‘spuma
No moreno das praias.Uma apĂłs uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o ‘spaço
Do ar entre as nuvens ‘scassas.Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.SĂł uma vaga pena inconsequente
PĂĄra um momento Ă porta da minha alma
E apĂłs fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.
Os Grandes Indiferentes
Ouvi contar que outrora, quando a PĂ©rsia
Tinha nĂŁo sei qual guerra,
Quando a invasĂŁo ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contĂnuo.Ă sombra de ampla ĂĄrvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversĂĄrio.
Um pĂșcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caĂdos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas…
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruĂdo,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distĂąncia prĂłxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,