O Procurador do Amor
Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atrás da sombra que me inculcas.Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.Meu olhar desnuda as passantes.
Ă€s vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(nĂŁo sabia quanto eras pura),
faço a polĂcia dos dessous.Eu sei que o ĂŞxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.O dia se emenda com a noite
As mulheres vĂŁo para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.
Poemas sobre Mulheres de Carlos Drummond de Andrade
6 resultadosIgual-Desigual
Eu desconfiava:
todas as histĂłrias em quadrinho sĂŁo iguais.
Todos os filmes norte-americanos sĂŁo iguais.
Todos os filmes de todos os paĂses sĂŁo iguais.
Todos os best-sellers sĂŁo iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol sĂŁo
iguais.
Todos os partidos polĂticos
sĂŁo iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
sĂŁo iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre sĂŁo enfadonhamente iguais.Todas as guerras do mundo sĂŁo iguais.
Todas as fomes sĂŁo iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte Ă© igualĂssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem nĂŁo Ă© igual a nenhum outro homem, bicho ou
[coisa.Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano Ă© um estranho
Ămpar.Carlos Drummond de Andrade, in ‘A PaixĂŁo Medida’
Sociedade
O homem disse para o amigo:
— Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dĂşzia de foguetes.O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
— Breve irei a tua casa.
E apertou a mĂŁo dos dois.No caminho o homem resmunga:
— Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: — Que idiota.— A casa é um ninho de pulgas.
— Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.E todas as quintas-feiras
eles voltam Ă casa do amigo
que ainda nĂŁo pĂ´de retribuir a visita.
Convite Triste
Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida Ă© ruim,
meu amigo, vamos sofrer.Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.Vamos beber uĂsque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mĂŁos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que Ă© dele
e que nunca será alma.Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mĂŁo idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.
O Amor Bate na Porta
Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os Ăłculos dos homens,
o amor, seja como for,
Ă© o amor.Meu bem, nĂŁo chores,
hoje tem filme de Carlito!O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
CardĂaco e melancĂłlico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.Entre uvas meio verdes,
meu amor, nĂŁo te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes nĂŁo mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cĂłcega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.Amor Ă© bicho instruĂdo.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrĂłgino.
Essa ferida, meu bem,
Ă s vezes nĂŁo sara nunca
Ă s vezes sara amanhĂŁ.
FamĂlia
TrĂŞs meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.