A Palavra
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar Ă© um sonho porque Ă© um sopro indivisĂvel
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cĂlios.Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em cĂrculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma lĂngua na lĂngua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nĂvel do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
Poemas sobre NĂvel
3 resultadosPoema da Voz que Escuta
Chamam-me lá em baixo.
SĂŁo as coisas que nĂŁo puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E nĂŁo acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
NĂŁo puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nĂvel do mar, quase Ă beira do mar,
Onde a multidĂŁo formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo Ă© vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraĂda,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro – a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
Ode
Eis-me nu e singelo!
Areia branca e o meu corpo em cima.
Um puro homem, natural e belo,
De carne que nĂŁo peca e que nĂŁo rima.A linha do horizonte Ă© um nĂvel quieto;
As velas, de cansaço, adormeceram;
E penas brancas, que eram luto preto,
Perderam-se no azul de onde vieram.Sol e frescura em toda a grande praia
Onde nĂŁo pode haver agricultura;
Esterilidade limpa, que nĂŁo caia
De pão e vinho a cósmica fartura.Dançam toninhas lúdicas no céu
Que visitam ligeiras e felizes;
Uma força sonâmbula as ergueu,
Mas seguras Ă seiva das raĂzes.Nem paz, nem guerra, nem desarmonia;
O sexo alegre, mas a repousar;
Um pleno, largo e caudaloso dia,
Sem horas e minutos a passar.Vem até mim, onda que trazes vida!
Soro da redenção!
Vem como o sangue doutra mĂŁe pedida
Na hora de dar mundo ao coração!