Não És Tu
Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visĂŁo que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razĂŁo
Que penetra, nĂŁo seduz;
NĂŁo era fogo, era luz
Que mandava ao coração.Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.Mas não és tu… ai!, não és:
Toda a ilusĂŁo se desfez.
NĂŁo Ă©s aquela que eu vi,
NĂŁo Ă©s a mesma visĂŁo,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.
Poemas sobre Olhos de Almeida Garrett
9 resultadosSeus Olhos
Seus olhos – que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
NĂŁo tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.Divino, eterno! – e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tĂŁo fatal poder,
Que, um sĂł momento que a vi,
Queimar toda a alma senti…
Nem ficou mais de meu ser,
SenĂŁo a cinza em que ardi.
Seus Olhos
Seus olhos – se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
NĂŁo tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.Divino, eterno! – e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tĂŁo fatal poder,
Que, num sĂł momento que a vi,
Queimar toda alma senti…
Nem ficou mais de meu ser,
SenĂŁo a cinza em que ardi.
Ignoto Deo
D. D. D.
Creio em Ti, Deus; a fé viva
De minha alma a Ti se eleva.
És: – o que és não sei. Deriva
Meu ser do Teu: luz… e treva,
Em que – indistintas! – se envolve
Este espĂrito agitado,
De Ti vem, a Ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
SĂł vive do eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza Ă©s Tu, luz Ă©s Tu,
Verdade Ă©s Tu sĂł. NĂŁo creio
SenĂŁo em Ti; o olho nu
Do homem nĂŁo vĂŞ na Terra
Mais que a dĂşvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
EssĂŞncia! a real beleza,
O puro amor – o prazer
Que não fatiga e não gasta…
SĂł por Ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vĂŁs e grosseiras
Sua alma, razĂŁo, sentidos,
A Ti se dĂŁo, em Ti vida,
E por Ti vida tĂŞm.
Os Cinco Sentidos
São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu nĂŁo tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
NĂŁo vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
NĂŁo percebe, nĂŁo toma
SenĂŁo o doce aroma
Que vem de ti – de ti!Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carĂcias,
Destino
Quem disse Ă estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como Ă© que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se Ă flor branca ou Ă vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem…
Ai!, não mo disse ninguém.Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino…
Vim, que em ti sĂł sei viver,
SĂł por ti posso morrer.
Este Inferno de Amar
Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como Ă© que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho –
Em que paz tĂŁo serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?SĂł me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei…
Adeus!
Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma que chora.
Choro porque nĂŁo te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu… tu nada perdeste;
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos tĂŁo daninhos
Que o seu poder só sei eu.Oh! vai… para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos céus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa vĂbora medonha
Que por seu fatal condĂŁo
Há-de rasgá-lo ao nascer:
Há-de sim, serás vingada,
E o meu castigo há-de ser
CiĂşme de ver-te amada,
Remorso de te perder.Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar – Ai! se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incĂŞndio fatal!
Mais negro e feio no inferno
NĂŁo chameia o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso? – Ai, triste!
NĂŁo sabes o que pediste.
Anjo És
Anjo Ă©s tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo Ă©s, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razĂŁo insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo Ă©s tu, nĂŁo Ă©s mulher.Anjo Ă©s. Mas que anjo Ă©s tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sĂ´frego pudor
Vela os mistérios d’amor.
Teus olhos tĂŞm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama Ă© vivaz e Ă© bela,
Mas luz não têm. – Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?Não respondes – e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!…
Isto que me cai no peito
Que foi?… – Lágrima? – Escaldou-me…
Queima,