O Nascimento
AĂ vem a estrela! AĂ vem, sobre a montanha,
Rompendo a sombra etérea do crepúsculo!
A paisagem tornou-se mais estranha,
Mais cheia de silêncio e de mistério!
Dormem ainda as árvores e os homens,
E dorme, em alto ramo, a cotovia…
E, se ergue já seu canto, é porque sonha
julga ver, sonhando, a luz do dia!E, pelos negros pĂncaros, a estrela
É divino sorriso alumiante.
Oh, que esplendor! Que formosura aquela!
É lĂrio de oiro aberto! É rosa a arder!AĂ vem a estrela! AĂ vem, sobre a montanha,
TĂŁo virginal, tĂŁo nova, que parece
Sair das mĂŁos de Deus, a vez primeira!E como, sobre os montes, resplandece!
Persegue-a o sol amado… No oriente,
Alastra um nimbo anĂmico de luz.
E a antiga dor das trevas, suavemente,
Ondula, em transparĂŞncia e palidez.AĂ vem a estrela, alumiando a serra!
E os olhos encantados dos pastores
Voltam-se para a estrela… E cá na terra
Há mágoas e penumbras, a fugir…Como ela voa, cintilando e rindo
Aos penhascos agrestes e desnudos!
Poemas sobre Ouro de Teixeira de Pascoaes
2 resultadosA Minha DĂ´r
Tua morte feriu-me no mais fundo,
Remoto da minh’alma que eu julgava
Já fóra desta vida e deste mundo!E vejo agora quanto me enganava,
Imaginando possuir em mim
Alma que fĂ´sse livre e nĂŁo escrava!Meu espirito Ă© treva e dĂ´r sem fim.
Todo eu sou dĂ´r e morte. Sou franquĂŞsa.
Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vimPrégar a noite, a lagrima, a incertêsa,
A luz que, para sempre, anoiteceu…
Esta envolvente, essencial tristĂŞsa,TristĂŞsa original donde nasceu
O sol caindo em lagrimas de luz,
Chôro de oiro inundando terra e céu!Sou o enviado da Sombra. Em negra cruz,
Meu ilusorio sĂŞr crucificado
Lembra um morto phantasma de Jesus…E aos pĂ©s da minha cruz, no chĂŁo maguado,
A tua Ausencia Ă© a Virgem Dolorosa,
Com tenebroso olhar no meu pregado.Ah! quanto a minha vida religiosa,
Depois que te perdeste no sol-pĂ´sto,
Se fez incerta, fragil e enganosa!Em meu sĂŞr desenhou-se um novo rĂ´sto.
Sou outro agora; e vejo com pavor
Minha máscara interna de desgôsto.