Do Amor e da Morte
Temos lábios tenros para o amor
dentes afiados para a morteConcebemos filhos para o amor
para a guerra os mandamos para a morteLevantamos casas para o amor
cidades bombardeamos para a mortePlantamos a seara para o amor
racionamos o trigo para a morteFlorimos atalhos para o amor
rasgamos fronteiras para a morteEscrevemos poemas para o amor
lavramos escrituras para a morteO amor e a morte
somos
Poemas sobre Poema de Casimiro de Brito
4 resultadosEstar no Mundo
Ao corpo colados a silenciosas
colunas de sal pavimentados eis os muros
paralelos eis as rápidas deformações da
linguagem (cálido ascetismo)
de quem arde por dentro — estar no mundo
Ă© teu caminho estar na cĂłlera
lavrada
e sobre si mesma dobrada e a guerra
mastigar a morte seca a subalimentada
explosĂŁo do corpo deformações suicĂdio
quotidiano — tal a poesia
se reflecte na luz a erosĂŁo do poema
o apodrece e movimenta— cinza mineral
entre restos de música e pão —
Do Poema
O problema nĂŁo Ă©
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tĂŁo-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e Ă morte, ao sol, ao vĂcio,
aos corpos nus dos amantes —o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais sĂł
do que as palavras
acompanhadas
no poema.
Da MĂşsica
A musica derrama-se
no corpo terroso
da palavra. Inclina-se
no mundo em mutação
do poema.A mĂşsica traz na bagagem
a memĂłria do sangue; o caminho
do sol: Lume e cume
de palavras polidas.A mĂşsica rompe um rio de lava
por si mesmo criado. Lágrima
endurecida
onde cabem o mar
e a morte.