Canto Esponjoso
Bela
esta manhĂŁ sem carĂŞncia de mito,
E mel sorvido sem blasfémia.Bela
esta manhĂŁ ou outra possĂvel,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituĂdas.Bela
a passagem do corpo, sua fusĂŁo
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tĂŁo absoluta
que me calo, repleto.
Poemas sobre PossĂvel de Carlos Drummond de Andrade
5 resultadosSegredo
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
NĂŁo diga nada.Tudo Ă© possĂvel, sĂł eu impossĂvel.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
NĂŁo conte.Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdĂŁo.
Não peça.
O Procurador do Amor
Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atrás da sombra que me inculcas.Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.Meu olhar desnuda as passantes.
Ă€s vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(nĂŁo sabia quanto eras pura),
faço a polĂcia dos dessous.Eu sei que o ĂŞxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.O dia se emenda com a noite
As mulheres vĂŁo para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.
O Deus Mal Informado
No caminho onde pisou um deus
há tanto tenpo que o tempo não lembra
resta o sonho dos pés
sem peso
sem desenho.Quem passe ali, na fracção de segundo,
em deus se erige, insciente, deus faminto,
saudoso de existĂŞncia.Vai seguindo em demanda de seu rastro,
Ă© um tremor radioso, uma opulĂŞncia
de impossĂveis, casulos do possĂvel.Mas a estrada se parte, se milparte,
a seta nĂŁo aponta
a destino algum, e o traço ausente
ao homem torna homem, novamente.
Inquérito
Pergunta às árvores da rua
que notĂcia tĂŞm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mĂŁo de velhos
profissionais de solidĂŁo.Pergunta Ă s coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigĂlia
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e nĂŁo.Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre sĂmbolos
de sĂmbolos outros, primeiros,
e tĂŁo acessĂveis aos pobres
como a breve casca do pĂŁo.Pergunta ao que, nĂŁo sendo, resta
perfilado Ă porta do tempo,