Intervalo
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado —
Aquele amor cheio de crença e medo
Que Ă© verdadeiro sĂł se Ă© segredado?…
Quem te disse tĂŁo cedo?NĂŁo fui eu, que te nĂŁo ousei dizĂŞ-lo.
NĂŁo foi um outro, porque nĂŁo sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi sĂł qualquer ciĂşme meu de ti
Que o supĂ´s dito, porque o nĂŁo direi,
Que o supĂ´s feito, porque o sĂł fingi
Em sonhos que nem sei?Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que nĂŁo passa do meu pensamento
Que anseia e que nĂŁo sente?Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca —
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
Poemas sobre Presente de Fernando Pessoa
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Chove. É Dia de Natal
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda Ă© pior.E toda a gente Ă© contente
Porque Ă© dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal nĂŁo.Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.