Xácara do Infinito
Fazia papa-luaça
com lama azul dos paĂşis;
e embaciava a vidraça;
ou de olhos baços, azuis,
parados, largos, serenos,
como o silĂŞncio dos mudos,
ou fitos, picos, pequenos,
venenos de ângulos agudos.Ou gargalhava estridente
como um riscar de repente
de uma faĂşlha de luz
em escuros de urros e uuus
que arrefecia os cabelos!
E a dissonância em novelos
rolava fundo e medonho
a meio do chĂŁo:.. Catrapuz!…
como um vĂłmito de luz
a estoirar dentro dum sonho!Ou escancarava a vidraça
a rir pedradas de lata;
mas logo o feixe-desfeixe
porque a lata se desata
e cai em pata de pata
na lájea das cousas mortas
das mortas noites sem portas!E logo a Noite corria,
e a vista via… – nĂŁo via:
porque entre o ver e o nĂŁo ver
há uma distância a correr
que pode ser… – ou nĂŁo ser
uma distância a valer!Aquele espaço intervalo
dum cabelo ou duma unha
à sensação de ter unha
é uma distância a cavalo
como a distância da unha
ao movimento da unha!
Poemas sobre Razão de Mário Saa
2 resultadosXácara das Mulheres Amadas
Quem muitas mulheres tiver,
em vez de uma amada esposa,
mais se afirma e se repousa
pera amar sua mulher;
Quem isto nĂŁo entender…
em cousas d’amor nĂŁo ousa,
em cousas d’amor nĂŁo quer!Quantas mais, mais se descansa,
mais a gente serve a todas;
quantas mais forem as bodas,
quantos mais os pares da dança,
menos a dança nos cansa
O gosto d’andar nas rodas.Que quantas mais, mais detido
a cada uma per si;
nem cansa tanto o que vi,
nem fica o gosto partido;
ao contrário, é acrescido
a cada uma per si!No paladar de mudar
mais se sente o gosto agudo:
que amar nada ou amar tudo
Ă© estar pronto a muito amar;
o enjoo vem de nĂŁo estar
a par do nada e do tudo.Mais facilmente se chega
pera muitas que pera uma;
e a razĂŁo Ă© porque, em suma,
se esta razĂŁo me nĂŁo cega,
quem quer que muitas adrega
Ă© como tendo…nenhuma!Com muitas, descanso vem,