Teus Olhos Entristecem
Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem…
Não me ouves, e prossigo.Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez…
Creio que nunca o ouviste
De tĂŁo tua que Ă©s.Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.Até que neste ocioso
Sumir da tarde fĂştil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inĂştil.
Poemas sobre Repente de Fernando Pessoa
7 resultadosO Maestro Sacode a Batuta
O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a mĂşsica rompe …Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cĂŁo verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo …Prossegue a mĂşsica, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cĂŁo verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…Todo o teatro Ă© o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma mĂşsica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cĂŁo verde tornando-se jockey amarelo…
(TĂŁo rápida gira a bola entre mim e os mĂşsicos…)Atiro-a de encontra Ă minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cĂŁo verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal…
Sorriso AudĂvel das Folhas
Sorriso audĂvel das folhas
NĂŁo Ă©s mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro Ă© que sorri?
O primeiro a sorrir ri.Ri e olha de repente
Para fins de nĂŁo olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.Mas o olhar, de estar olhando
Onde nĂŁo olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se nĂŁo conversou
Isto acaba ou começou?
Mensagem – Mar PortuguĂŞs
MAR PORTUGUĂŠS
Possessio Maris
I. O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.Quem te sagrou criou-te portuguĂŞs.
Do mar e nĂłs em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!II. Horizonte
Ă“ mar anterior a nĂłs, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
’Splendia sobre as naus da iniciação.Linha severa da longĂnqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves,
O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.Quem te sagrou criou-te portuguĂŞs.
Do mar e nĂłs em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E sĂşbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é sério, e correr?
O que é está-lo eu a ver?Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, Ă terra e aos cĂ©us…E sĂşbito encontro Deus.
Em Plena Vida e ViolĂŞncia
Em plena vida e violĂŞncia
De desejo e ambição,
De repente uma sonolĂŞncia
Cai sobre a minha ausĂŞncia.
Desce ao meu próprio coração.Será que a mente, já desperta
Da noção falsa de viver,
VĂŞ que, pela janela aberta,
Há uma paisagem toda incerta
E um sonho todo a apetecer ?