arte poética
o poema nĂŁo tem mais que o som do seu sentido,
a letra p nĂŁo Ă© a primeira letra da palavra poema,
o poema Ă© esculpido de sentidos e essa Ă© a sua forma,
poema nĂŁo se lĂȘ poema, lĂȘ-se pĂŁo ou flor, lĂȘ-se erva
fresca e os teus lĂĄbios, lĂȘ-se sorriso estendido em mil
ĂĄrvores ou cĂ©u de punhais, ameaça, lĂȘ-se medo e procura
de cegos, lĂȘ-se mĂŁo de criança ou tu, mĂŁe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que nĂŁo
se escrevem, LĂȘ-se paĂs e mar e cĂ©u esquecido e
memĂłria, lĂȘ-se silĂȘncio, sim tantas vezes, poema lĂȘ-se silĂȘncio,
lugar que nĂŁo se diz e que significa, silĂȘncio do teu
olhar doce de menina, silĂȘncio ao domingo entre as conversas,
silĂȘncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silĂȘncio
de ti, pai, que morreste em tudo para sĂł existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema nĂŁo Ă© esta caneta de tinta preta, nĂŁo Ă© esta voz,
Poemas sobre Rimas
26 resultadosĂ Minha Felicidade
Revejo os pombos de SĂŁo Marcos:
A praça estå silenciosa; ali se repousa a manhã.
Indolentemente envio os meus cantos para o seio da suave
frescura,
Como enxames de pombos para o azul
Depois torno a chamĂĄ-los
Para prender mais uma rima Ă s suas penas.
â Ă minha felicidade! Ă minha felicidade!Calmo cĂ©u, cĂ©u azul-claro, cĂ©u de seda,
Planas, protector, sobre o edifĂcio multicor
De que gosto, que digo eu?… Que receio, que invejo…
Como seria feliz bebendo-lhe a alma!
Alguma vez lha devolveria?
NĂŁo, nĂŁo falemos disso, Ăł maravilha dos olhos!
â Ă minha felicidade! Ă minha felicidade!Severa torre, que impulso leonino
Te levantou ali, triunfante e sem custo!
Dominas a praça com o som profundo dos teus sinos…
Serias, em francĂȘs, o seu «accent aigu»!
Se, como tu, eu ficasse aqui,
Saberia a seda que me prende…
â Ă minha felicidade! Ă minha felicidade!Afasta-te, mĂșsica. Deixa primeiro as sombras engrossar
E crescer até à noite escura e tépida.
Ă ainda muito cedo para ti, os teus arabescos de ouro
Ainda nĂŁo cintilam no seu esplendor de rosa;
Um Pouco Mais de NĂłs
Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que Ă©s e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silĂȘncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma mĂșsica sĂł tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dĂĄdiva
ao hĂșmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relĂłgio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serĂĄs ainda mais,
anĂłnimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
Ă© dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horĂĄrio,
que a mĂĄxima recompensa de quem dĂĄ
Ă© o jĂșbilo de um gesto voluntĂĄrio.
Rosa Rosae
Rosa
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que nĂŁo foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada
Natal
Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela mĂșsica acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silĂȘncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num sĂł tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de ĂĄgua turva
na cidade agitada pelo vento.Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcĂŁo. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Dormindo
De qual de vĂłs desceu para o exĂlio do mundo
A alma desta mulher, astros do céu profundo?
Dorme talvez agora… AlvĂssimas, serenas,
Cruzam-se numa prece as suas mĂŁos pequenas.
Para a respiração suavĂssima lhe ouvir,
A noite se debruça… E, a oscilar e a fulgir,
Brande o glĂĄdio de luz, que a escuridĂŁo recorta,
Um arcanjo, de pé, guardando a sua porta.
Versos! podeis voar em torno desse leito,
E pairar sobre o alvor virginal de seu peito,
Aves, tontas de luz, sobre um fresco pomar…
Dorme… Rimas febris, podeis febris voar…
Como ela, num livor de névoas misteriosas,
Dorme o céu, campo azul semeado de rosas;
E dois anjos do céu, alvos e pequeninos,
VĂȘm dormir nos dois cĂ©us dos seus olhos divinos…
Dorme… Estrelas, velai, inundando-a de luz!
Caravana, que Deus pelo espaço conduz!
Todo o vosso dano nesta pequena alcova
Sobre ela, como um nimbo esplĂȘndido, se mova:
E, a sorrir e a sonhar, sua leve cabeça
Como a da Virgem Mie repouse e resplandeça!