Maomé e a Montanha
Guardo o mais absoluto segredo
das pedras que rolam no fundo dos leitos
embora nada saiba,
nada ouse saber.
Vou pelo olhar até ao rio,
o rio vem a mim
e ambos caminhamos deslumbrados
para fora de nós.O cantar da água
corre nos meus olhos exactamente como corre
a manhĂŁ
até que o sol a prumo
faz de mim o desenho do rio
que vejo,
o mapa das veias
onde o corpo nasce de novo.Ă€ vinda procuro a minha sombra.
O coração que me há-de trazer de volta
demora-se no rio
como se nele corresse
uma sede de olhar.Os pés colam-se à margem.
Do outro lado as casas vĂŁo mudando
de expressĂŁo
mais lentamente do que a água corre.
O sol abraça-me pelas costas
e deixa-se escorregar como crianças
que riem,
que não distinguem a voz seca do tempo.É noite à lareira da casa.
Os objectos acendem-se:
também eles mudam de rosto
como tudo o que Ă© iluminado por amor.
Poemas sobre Segredos de Rosa Alice Branco
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O Pecado da Gula
Ontem Ă tarde saĂ.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nĂłs.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrĂŁo
e a subir na memĂłria
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
Ă© uma bĂşssola fiel que segue pela estrada
enquanto o pĂł se levanta
muito para além dos nossos passos.