NĂŁo Ăs Tu
Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visĂŁo que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razĂŁo
Que penetra, nĂŁo seduz;
NĂŁo era fogo, era luz
Que mandava ao coração.Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.Mas nĂŁo Ă©s tu… ai!, nĂŁo Ă©s:
Toda a ilusĂŁo se desfez.
NĂŁo Ă©s aquela que eu vi,
NĂŁo Ă©s a mesma visĂŁo,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.
Poemas sobre Seios de Almeida Garrett
5 resultadosRosa PĂĄlida
Rosa pĂĄlida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai!, a minha pobre rosa!
Cuida que Ă© menos formosa
Porque desbotou de amor.Pois sim… quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.Mas não eras, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na entĂŁo desejos,
Desmaiam-na agora os beijos…
Vales mais mil vezes, mil.Inveja das outras flores!
Inveja de quĂȘ, amores?
Tu, que vieste dos CĂ©us,
Comparar tua beleza
Ăs filhas da natureza!
Rosa, nĂŁo tentes a Deus.E vergonha!… de quĂȘ, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
PorquĂȘ?… porquĂȘ em teu semblante
A pĂĄlida cor da amante
A minha ventura diz?Pois, quando eras tĂŁo vermelha
NĂŁo vinha zĂąngĂŁo e abelha
Em torno de ti zumbir?
NĂŁo ouvias entre as flores
HistĂłrias dos mil amores
Que nĂŁo tinhas,
Destino
Quem disse Ă estrela o caminho
Que ela hå-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como Ă© que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se Ă flor branca ou Ă vermelha
O seu mel hĂĄ-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem…
Ai!, não mo disse ninguém.Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino…
Vim, que em ti sĂł sei viver,
SĂł por ti posso morrer.
Perfume da Rosa
Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? ou que nume
Com esse aroma delira?Qual Ă© o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?– NinguĂ©m? – Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pĂŽs assim pendente?
Dize, rosa namorada.E a cor de pĂșrpura viva
Como assim te desmaiou?
e essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?Os espinhos que tĂŁo duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmam, Ăł rosa?E porquĂȘ, na hĂĄstea sentida
Tremes tanto ao pĂŽr do sol?
Porque escutas tĂŁo rendida
O canto do rouxinol?Que eu nĂŁo ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas ĂĄguas desse retiro
NĂŁo espreitei a tua imagem?NĂŁo a vi aflita, ansiada…
– Era de prazer ou dor? –
Mentiste, rosa, Ă©s amada,
E também tu amas, flor.Mas ai! se não for um nume
O que em teu seio delira,
Anjo Ăs
Anjo Ă©s tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o hĂĄ-de ter em mim.
Anjo Ă©s, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razĂŁo insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo Ă©s tu, nĂŁo Ă©s mulher.Anjo Ă©s. Mas que anjo Ă©s tu?
Em tua fronte anuviada
NĂŁo vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sĂŽfrego pudor
Vela os mistĂ©rios d’amor.
Teus olhos tĂȘm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama Ă© vivaz e Ă© bela,
Mas luz nĂŁo tĂȘm. – Que anjo Ă©s tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De JeovĂĄ ou Belzebu?NĂŁo respondes – e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!…
Isto que me cai no peito
Que foi?… – LĂĄgrima? – Escaldou-me…
Queima,