Poemas sobre Terra de Mia Couto

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Primeira Palavra

Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessĂ­veis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestĂ­gio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo

Versos para a PatrĂ­cia

1. Ilha

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra

Meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me

Depois, nĂŁo
me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.

2. VĂ©spera

Há um perfume
que trabalha em mim
e me acende,
antigo,
sobre a poeira

Há um rosto
que regressa Ă  fonte
água readormecendo

E sĂł hoje reparo
o labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu

Pássaros brancos
vĂŁo pousando
na varanda dos teus olhos

SĂł hoje enfrento o sol
fogo imĂłvel,
labareda de água

Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol

O Instante Antes do Beijo

NĂŁo quero o primeiro beijo:
basta-me
O instante antes do beijo.

Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgĂŁo do sismo.

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
nĂŁo tem depois.

Quero o vulcĂŁo
que na terra nĂŁo toca:
o beijo antes de ser boca.

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
Ă s minhas mĂŁos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nĂłs
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e nĂŁo dormĂ­amos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridĂŁo
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um sĂł
amando de uma sĂł vida