O Amor no ChĂŁo
O vento da outra noite derrubou o Amor
Que, no mais misterioso recanto do parque,
Nos sorria, ao esticar malignamente o arco,
E cujo ar nos fez meditar com fervor!O vento da outra noite derrubou-o! O mĂĄrmore
com o sopro da manhĂŁ, disperso, gira. Ă triste
Olhar o pedestal, onde o nome do artista
Se lĂȘ com muito esforço Ă sombra de uma ĂĄrvore,Ă triste ver em pĂ©, sozinho, o pedestal!
MelancĂłlicos vĂȘm e vĂŁo pensamentos
No meu sonho, onde o mais profundo sofrimento
Evoca um solitĂĄrio futuro fatal.Ă triste! â E mesmo tu, nĂŁo Ă©? ficas tocada
Plo cenĂĄrio dolente, embora te divirtas
Com a borboleta rubra e de oiro, que se agita
Sobre a alameda, além, de destroços juncada.Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Poemas sobre Tradução de Paul Verlaine
5 resultadosSabedoria I, III
Que dizes, viajante, de estaçÔes, paĂses?
Colheste ao menos tédio, jå que estå maduro,
Tu, que vejo a fumar charutos infelizes,
Projectando uma sombra absurda contra o muro?Também o olhar estå morto desde as aventuras,
Tens sempre a mesma cara e teu luto Ă© igual:
Como através dos mastros se vislumbra a lua,
Como o antigo mar sob o mais jovem sol,Ou como um cemitĂ©rio de tĂșmulos recentes.
Mas fala-nos, vĂĄ lĂĄ, de histĂłrias pressentidas,
Dessas desilusÔes choradas plas correntes,
Dos nojos como insĂpidos recĂ©m-nascidos.Fala da luz de gĂĄs, das mulheres, do infinito
Horror do mal, do feio em todos os caminhos
E fala-nos do Amor e tambĂ©m da PolĂtica
Com o sangue desonrado em mãos sujas de tinta.E sobretudo não te esqueças de ti mesmo,
Arrastando a fraqueza e a simplicidade
Em lugares onde hĂĄ lutas e amores, a esmo,
De maneira tĂŁo triste e louca, na verdade!Foi jĂĄ bem castigada essa inocĂȘncia grave?
Que achas? Ă duro o homem; e a mulher? E os choros,
Quem os bebeu?
Nevermore
Ah, lembrança, lembrança, que me queres? O Outono
Fazia voar os tordos plo ar desmaiadoE o sol dardejava um monĂłtono raio
No bosque amarelado onde a nortada ecoa.A sonhar caminhĂĄvamos os dois, a sĂłs,
Ela e eu, pensamento e cabelos ao vento.
De repente, fitou-me em olhar comovente:
«Qual foi o teu mais belo dia?» disse a vozDe oiro vivo, sonora, em fresco timbre angélico.
Um sorriso discreto deu-lhe a minha réplica
E entĂŁo, como um devoto, beijei-lhe a mĂŁo branca.â Ah! as primeiras flores, como sĂŁo perfumadas!
E como em nĂłs ressoa o murmĂșrio vibrante
Desse primeiro sim dos låbios bem-amados!Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Conversa Sentimental
No velho parque deserto e gelado
Duas formas passaram hĂĄ bocado.Com os olhos mortos e os lĂĄbios moles,
Mal se ouvem, a custo, as suas vozes.No velho parque deserto e gelado
Dois espectros evocaram o passado.â Recordas-te do nosso ĂȘxtase antigo?
â Por que razĂŁo acha que ainda consigo?â Bate, ao ouvires meu nome, o coração?
VĂȘs ainda a minha alma em sonhos? â NĂŁo.â Ah! bons tempos de prazer indizĂvel
Unindo as nossas bocas! â Ă possĂvel.â Como era azul, o cĂ©u, e grande a esperança!
â Mas Ă© prĂČ negro cĂ©u que hoje se lança.LĂĄ caminhavam plas aveias loucas
E só a noite ouviu as suas bocas.Tradução de Fernando Pinto do Amaral
II Bacio
O Beijo! malva-rosa em jardim de carĂcias!
Vivo acompanhamento no piano dos dentes
Dos refrĂŁos que Amor canta nas almas ardentes
Com a sua voz de arcanjo em lĂąnguidas delĂcias!Divino e gracioso Beijo, tĂŁo sonoro!
VolĂșpia singular, ĂĄlcool inenarrĂĄvel!
O homem, debruçado na taça adoråvel,
Deleita-se em venturas que nunca se esgotam.Como o vinho do Reno e a mĂșsica, embalas
E consolas a mĂĄgoa, que expira em conjunto
Com os lĂĄbios amuados na prega purpĂșrea…
Que um maior, Goethe ou Will, te erga um verso clĂĄssico.Quanto a mim, trovador franzino de Paris,
Só te ofereço um bouquet de estrofes infantis:
SĂȘ benĂ©volo e desce aos lĂĄbios insubmissos
De Uma que eu bem conheço, Beijo, e neles ri.Tradução de Fernando Pinto do Amaral