Só os Lábios Respiram
Só os lábios respiram. Simples gesto vivo,
exĂlio do som onde se oculta o pavor da
palavra, pátria salgada cerrada no vazio
da casa de velhos deuses ávidos de preces.
Na garra da águia se fecha e rompe a boca,
templo e entranha, prodĂgio e anel
do eco, sinal esparso do caĂdo concerto
da vida. Por estes soberbos montes, estas
rasas colinas, estas águas circulantes,
vai o grito da cegueira, o delĂrio lasso
na manhĂŁ, a saciada loucura do escuro
nome nocturno. Como um fragor dos céus,
caminha o canto agudo das árduas cigarras
perseguindo a funesta morte. Por esta
paisagem parda, que lábios me guardam
do próximo desastre, a mudança em ave,
cio ou sal, erva ou peixe, cicatriz ou
mito, veia ou água? Que lábios respiram
na coisa mortal que serei apĂłs o termo
da eterna efemeridade deste meu corpo,
coma de luz, deste desejo, rijo resĂduo,
deste pensamento, disfarce ou máscara,
deste rapto do tempo, deste
coração que começa?
Poemas sobre Vida de Orlando Neves
5 resultadosComo Realiza o Corpo este ExercĂcio da Queda
Como realiza o corpo este exercĂcio
da queda no sĂşbito conhecimento
do espanto, quando os olhos estĂŁo vencidos,
cerrados pela transparĂŞncia e pela luz
ofuscante da alva? À medida que o corpo
seca e se aplacam os seus, outrora, amáveis
dons, se ensombram os ossos, mĂseras as mĂŁos
emagrecidas e se desnuda a carne
no fundo fôlego das águas, aumenta
o assombro da claridade. SĂł a vida
gerou o tempo, eis que ausente, ao resplendor
inesperado da luz descida. Onde vai
o humilde corpo, se corpo resta ou se outro,
receber a miraculosa mudança
de nada existir a nĂŁo ser o profundo
bando do grito terrĂvel de todos
os mortos? Ah, que estupor sela os mĂşsculos,
enrijece as unhas e aspira a voz,
resfria o suor e nos conduz, inertes
e cegos, ao nĂşcleo da luz deslumbrante?
Ă“ mar de que futuro, rumor volĂşvel,
sopro claro, envolve-nos de compaixĂŁo!
Erra, Fio mortal da Alma, o Destino
Erra, fio mortal da alma, o destino.
Porém, trémulo, o não temo.
Seco será o poder do nada, o silêncio
dos deuses ou o rosto corrompido
dos homens. Estas folhas ásperas
e pálidas entardecem e conhecem-me.
O ar que queima, sem arder, a pedra
da manhĂŁ ou o inigualado luto
da noite, Ă© solene, Ă© suave,
inexorável princĂpio de tudo
quanto existirá. É ido o sonho
do fogo, a exacta vida, sucumbe
o corpo no vazio enigma da cĂłlera
divina. Dura, sem medida, a excessiva,
a Ă©bria, a avara solidĂŁo, neste ar
perene que, no odor da terra se
oculta. SĂł minha absurda aparĂŞncia
a Ave dilacera.
Todas as Noites me Sinto
Todas as noites me sinto
igual aos desconhecidos.
Sou a criança que sou,
só quando o tempo pára.Fico em mim,
fora dos mĂşsculos.Por que se movem os deuses
quando o sol cresta as formigas?
Lendas da luz da noite
secam todo o movimento.Seguro a vida
por desespero.
SĂł no Pensamento Volta o Mundo
SĂł no pensamento volta o
mundo. Ao ruĂdo da voz
apenas aspiro — que a alma
Ă© o ser mais que a dor ou o
verde cinza do halo das
árvores na manhĂŁ Ăntima das
cores diurnas. Temi os
deuses pelo coração dos
homens, ao homem temo
que por metade vive o medo
divino. Resta, no espasmo
da terra, a mágoa seca, a
ruĂna da água, a traição do
nada neste corpo de cera,
coroado do silĂŞncio ferido.
Se nĂŁo de amor Ă© o dia
aberto quando as vĂsceras
róseas ouvem a respiração
do fogo derramado eros.
Que a estreita vida diz na
tĂŁo pouco breve humilde
erva a tĂŁo febril brisa, cio de
matinal bĂşzio ou rouca
flauta. EntĂŁo me ergo e
ouso, vaso do vento, clamar
a queda. Ă“ esta humana e
divina pobreza de querer
sem fulgor, de tudo poder
sem desejo, alheio ou meu!
O que do futuro ignoro Ă©
maior que o tempo que vivo,
Ă© palavra de cega lĂngua, em
mim calada por jamais lida.