A Verdade
A verdade Ă© semelhante a uma adolescente
vibrante, flexĂvel, em radiosa sombra.
Quando fala Ă© a noite translĂşcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.Ela dorme tĂŁo perfeitamente despertada
que em si a verdade Ă© o vazio. Ela aspira
Ă cegueira, ao eclipse, Ă travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sedee o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitectura volante
em suspensas superfĂcies ondulantes.
Ela Ă© a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sĂlabas solidárias.
Passagens sobre SĂlabas
43 resultadosO Problema da Sinceridade do Poeta
O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta mĂ©dio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir. Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguĂ©m sabe o que verdadeiramente sente: Ă© possĂvel sentirmos alĂvio com a morte de alguĂ©m querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque Ă© isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que nĂŁo sente Ă© com qualquer espĂ©cie ou grau de sinceridade intelectual, e essa Ă© que importa no poeta. Tanto assim Ă© que nĂŁo creio que haja, em toda a já longa histĂłria da Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que dissessem o que verdadeiramente, e nĂŁo sĂł efectivamente, sentiam. Há alguns, muito grandes, que nunca o disseram, que foram sempre incapazes de o dizer. Quando muito há, em certos poetas, momentos em que dizem o que sentem.
Aqui e ali o disse Wordsworth. Uma ou duas vezes o disse Coleridge; pois a Rima do Velho Nauta e Kubla Khan sĂŁo mais sinceros que todo o Milton, direi mesmo que todo o Shakespeare. Há apenas uma reserva com respeito a Shakespeare: Ă© que Shakespeare era essencial e estruturalmente factĂcio;
Até Amanhã
Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.É primeiro só um rumor de espuma
Ă roda do corpo que desperta,
sĂlaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar Ă© diurno e sem palavras.Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.