Data
{Ă maneira de Eustache Deschamps)
Tempo de solidĂŁo e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negaçãoTempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidĂŁoTempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silĂȘncio e de mordaça
Tempo onde o sangue nĂŁo tem rastro
Tempo de ameaça
Passagens sobre SilĂȘncio
845 resultadosAlvorecer
A noite empalidece. Alvorecer…
Ouve-se mais o gargalhar da fonte…
Sobre a cidade muda, o horizonte
Ă uma orquĂdea estranha a florescer.HĂĄ andorinhas prontas a dizer
A missa d’alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.Passos ao longe… um vulto que se esvai…
Em cada sombra Colombina trai…
Anda o silĂȘncio em volta a q’rer falar…E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pĂĄlido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar…
O silĂȘncio Ă© o gradil da sabedoria.
SilĂȘncio de outono. Nem o grito do carteiro… cochicho de folhas.
CenĂĄrio de Natal Sem o Natal
Nenhuma estrela luz, com mais brilho no céu.
NĂŁo oiço rumor dâasa ou de vagido
Ă meia-noite jĂĄ. E ainda nĂŁo nasceu.
O que terĂĄ acontecido?Eu, para aqui ajoelhado,
A memĂłria da infĂąncia a pedir-me alegria,
Todo o presépio armado
… E a mangedoira vazia!O silĂȘncio apavora:
Nem uma loa, nem o som de um sino.
PorquĂȘ tanta demora?
NĂŁo mais irĂĄ nascer o meu menino?Nenhum sinal de sobrenatural
No cenårio onde a fé não sublima nem arde.
Por isso, o meu Natal
Vai chegar tarde.(Para sempre tarde?)
Assistirmos ao sofrimento do nosso filho Ă© estarmos em carne viva por dentro, Ă© nĂŁo termos pele, Ă© um incĂȘndio a arder no mundo inteiro, mesmo no mundo inteiro. E cada som do nosso filho a sofrer Ă© silĂȘncio em brasa, Ă© a cabeça cheia de silĂȘncio em brasa, o peito cheio, incandescente, o mundo inteiro em brasa.
Ame como a chuva fina.Esta cai em silĂȘncio, quase sem fazer notar, mas Ă© capaz de transbordar rios.
Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do cĂ©u, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chĂŁo, explodem em silĂȘncio. Tudo neles Ă© absoluto, atĂ© as contradiçÔes em que tropeçam. E estĂŁo lĂĄ, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, atĂ© a loucura, atĂ© os pesadelos, atĂ© a esperanças em todas as suas formas.
O Maior Triunfo do Homem
O maior triunfo do homem Ă© quando se convence de que o ridĂculo Ă© uma coisa sua que existe sĂł para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele entĂŁo deixa de importar-se com o ridĂculo, que, como nĂŁo estĂĄ em si, ele nĂŁo pode matar.
TrĂȘs coisas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silĂȘncio a sua superioridade – o ridĂculo, o trabalho e a dedicação.
Como nĂŁo se dedica a ninguĂ©m, tambĂ©m nada exige da dedicação alheia. SĂłbrio, casto, frugal, tocando o menos possĂvel na vida, tanto para nĂŁo se incomodar como para nĂŁo aproximar as coisas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveniĂȘncia do orgulho e da desilusĂŁo. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente Ă© submeter-se – submeter-se Ă acção da coisa sentida.Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman olĂmpico, Proteu da compreensĂŁo, sem partilhar de vivĂȘ-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou ficar nas partidas de navios e pode ficar e embarcar ao mesmo tempo, porque nĂŁo embarca nem fica. Esteve com todos em todas as sensaçÔes de todas as horas da sua vida.
Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silĂȘncios que se declaram.
Blasfémia
SilĂȘncio, meu Amor, nĂŁo digas nada!
Cai a noite nos longes donde vim…
Toda eu sou alma e amor, sou um jardim,
Um pĂĄtio alucinante de Granada!Dos meus cĂlios a sombra enluarada,
Quando os teus olhos descem sobre mim,
Traça trémulas hastes de jasmim
Na palidez da face extasiada!Sou no teu rosto a luz que o alumia,
Sou a expressão das tuas mãos de raça,
E os beijos que me dĂĄs jĂĄ foram meus!Em ti sou GlĂłria, Altura e Poesia!
E vejo-me — milagre cheio de graça! —
Dentro de ti, em ti igual a Deus!…
Conduta e Poesia
Quando o tempo nos vai comendo com o seu relĂąmpago quotidiano decisivo, as atitudes fundadas, as confianças, a fĂ© cega se precipitam e a elevação do poeta tende a cair como o mais triste nĂĄcar cuspido, perguntamo-nos se jĂĄ chegou a hora de envilecermos. A hora dolorosa de ver como o homem se sustĂ©m a puro dente, a puras unhas, a puros interesses. E como entram na casa da poesia os dentes e as unhas e os ramos da feroz ĂĄrvore do Ăłdio. Ă o poder da idade, ou proventura, a inĂ©rcia que faz retroceder as frutas no prĂłprio bordo do coração, ou talvez o «artĂstico» se apodere do poeta e, em vez do canto salobro que as ondas profundas devem fazer saltar, vemos cada dia o miserĂĄvel ser humano defendendo o seu miserĂĄvel tesouro de pessoa preferida?
AĂ, o tempo avança com cinza, com ar e com ĂĄgua! A pedra que o lodo e a angĂșstia morderam floresce com prontidĂŁo com estrondo de mar, e a pequena rosa regressa ao seu delicado tĂșmulo de corola.
O tempo lava e desenvolve, ordena e continua.
E que fica entĂŁo das pequenas podridĂ”es, das pequenas conspiraçÔes do silĂȘncio, dos pequenos frios sujos da hostilidade?
Teus Olhos
Teus olhos sĂŁo a pĂĄtria do relĂąmpago e da lĂĄgrima,
silĂȘncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pĂĄssaros presos, douradas feras adormecidas,
topĂĄzios Ămpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma ĂĄrvore e sĂŁo pĂĄssaros todas as folhas,
praia que a manhĂŁ encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitåria.Tradução de Luis Pignatelli
O silĂȘncio Ă© Ă s vezes o que faz mais mal quando a gente sofre.
O Mar Ă© Longe, mas Somos NĂłs o Vento
O mar Ă© longe, mas somos nĂłs o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
Ă© doutro e mesmo, Ă© ar da tua boca
onde o silĂȘncio pasce e a noite aceita.
Donde estås, que névoa me perturba
mais que nĂŁo ver os olhos da manhĂŁ
com que tu mesma a vĂȘs e te convĂ©m?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dĂĄ;
e Ă© com mĂŁos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessårio ao pé do mar.
NĂŁo forces uma verdade a dizer mais do que diz. Porque o limite a que vai dar toda a verdade Ă© o silĂȘncio.
Eu penso 99 vezes e nĂŁo descubro a verdade. Paro de pensar, mergulho em em profundo silĂȘncio, e eis que a verdade me Ă© revelada.
Eu acho que nĂłs atĂ© comunicamos muito bem, no nosso silĂȘncio, no que nĂŁo Ă© dito, e que o que ocorre Ă© uma evasĂŁo contĂnua, enquanto tentamos desesperadamente manter-nos a nĂłs prĂłprios para nĂłs prĂłprios. A comunicação Ă© muito alarmante. Entrar na vida de outra pessoa Ă© algo assustador. Divulgar aos outros a pobreza que estĂĄ dentro de nĂłs Ă© uma possibilidade muito assustadora.
Ăs vezes ofendemos mais com o nosso silĂȘncio do que com a nossa impertinĂȘncia.
Em amor um silĂȘncio vale mais do que uma linguagem. Ă bom ficar sem palavras; hĂĄ uma eloquĂȘncia no silĂȘncio que penetra mais do que a lĂngua o conseguiria.