Afrodite II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mĂĄrmore luzindo
AlvirrĂłseo do peito, â nua e fria,
Ela Ă© a filha do mar, que vem sorrindo.Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pĂ©rolas, â sorria
Ao vĂȘ-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de Ăąmbar no recesso infindo.Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pĂȘlo
Nas ĂĄguas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;VĂȘm a saudĂĄ-la todos, revoando,
Golfinhos e tritÔes, em larga ronda,
Pelos retorsos bĂșzios assoprando.
Sonetos sobre Ăgua de Alberto d'Oliveira
5 resultadosChoro De Vagas
NĂŁo Ă© de ĂĄguas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor â ouço um clamor humano;
Em seu lamento â todos os lamentos.SĂŁo de nĂĄufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou tĂĄbua, ou pano,
Vejo-os varridos de tufÔes violentos;Vejo-os na escuridão da noite, aflitos,
Bracejando ou jå mortos e de bruços,
Largados das marĂ©s, em ermas plagasâŠAh! que sĂŁo deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!
Velhice
Ăgua do rio Letes, onde passas?
Venha a mim o teu curso benfazejo
Que sepulta alegrias ou desgraças
No mesmo esquecimento sem desejo.Quero beber-te por contĂnuas taçasâŠ
E Ă s horas do passado que revejo,
Pedir-te que as afogues e desfaças
Na carĂcia e na esmola do teu beijo!Quem de si nunca esteve satisfeito
E com novas empresas sĂł procura
Corrigir seu engano ou seu defeito,NĂŁo pode recordar sem amargura
Que a mais nenhum esforço tem direito
Na ruĂna presente e na futuraâŠ
Afrodite I
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
Ă clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vĂŁo com o vento os carmes concertando,O mar, â turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das ĂĄguas, murmurando,
Como um bosque pagĂŁo de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pĂĄlio da alvorada.As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas sĂŁo no verde plano
Tocadas de ouro e irradiaçÔes divinas;O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, Ă flor de oceano,
Coroada de um cĂrculo de espumas.
Taça De Coral
LĂcias, pastor â enquanto o sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia.
Em sede abrasa, qual de amor por Febe,
â Sede tambĂ©m, sede maior, desmaia.Mas aplacar-lhe vem piedosa Naia
A sede dâĂĄgua: entre vinhedo e sebe
Corre uma linfa, e ele no seu de faia
De ao pĂ© do Alfeu tarro escultado bebe.Bebe, e a golpe e mais golpe: â âQuer ventura
(Suspira e diz) que eu mate uma Ăąnsia louca,
E outra fique a penar, zagala ingrata!Outra que mais me aflige e me tortura,
E nĂŁo em vaso assim, mas de uma boca
Na taça de coral Ă© que se mataâ,