Sonetos sobre Água de Alberto d'Oliveira

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Sonetos de ĂĄgua de Alberto d'Oliveira. Leia este e outros sonetos de Alberto d'Oliveira em Poetris.

Afrodite II

Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mĂĄrmore luzindo
Alvirróseo do peito, – nua e fria,
Ela Ă© a filha do mar, que vem sorrindo.

Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pĂ©rolas, – sorria
Ao vĂȘ-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de Ăąmbar no recesso infindo.

Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pĂȘlo
Nas ĂĄguas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;

VĂȘm a saudĂĄ-la todos, revoando,
Golfinhos e tritÔes, em larga ronda,
Pelos retorsos bĂșzios assoprando.

Choro De Vagas

NĂŁo Ă© de ĂĄguas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor – ouço um clamor humano;
Em seu lamento – todos os lamentos.

SĂŁo de nĂĄufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou tĂĄbua, ou pano,
Vejo-os varridos de tufÔes violentos;

Vejo-os na escuridĂŁo da noite, aflitos,
Bracejando ou jå mortos e de bruços,
Largados das marés, em ermas plagas


Ah! que sĂŁo deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

Velhice

Água do rio Letes, onde passas?
Venha a mim o teu curso benfazejo
Que sepulta alegrias ou desgraças
No mesmo esquecimento sem desejo.

Quero beber-te por contínuas taças

E Ă s horas do passado que revejo,
Pedir-te que as afogues e desfaças
Na carĂ­cia e na esmola do teu beijo!

Quem de si nunca esteve satisfeito
E com novas empresas sĂł procura
Corrigir seu engano ou seu defeito,

NĂŁo pode recordar sem amargura
Que a mais nenhum esforço tem direito
Na ruína presente e na futura


Afrodite I

Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vĂŁo com o vento os carmes concertando,

O mar, – turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das ĂĄguas, murmurando,
Como um bosque pagĂŁo de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pĂĄlio da alvorada.

As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas sĂŁo no verde plano
Tocadas de ouro e irradiaçÔes divinas;

O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, Ă  flor de oceano,
Coroada de um cĂ­rculo de espumas.

Taça De Coral

Lícias, pastor – enquanto o sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia.
Em sede abrasa, qual de amor por Febe,
– Sede tambĂ©m, sede maior, desmaia.

Mas aplacar-lhe vem piedosa Naia
A sede d’água: entre vinhedo e sebe
Corre uma linfa, e ele no seu de faia
De ao pé do Alfeu tarro escultado bebe.

Bebe, e a golpe e mais golpe: – “Quer ventura
(Suspira e diz) que eu mate uma Ăąnsia louca,
E outra fique a penar, zagala ingrata!

Outra que mais me aflige e me tortura,
E nĂŁo em vaso assim, mas de uma boca
Na taça de coral Ă© que se mata”,