Cantares Bacantes IV
São Mateus bebo teu verbo
conjugado na tintura,
semi-breve partitura
na regência d’um Efebo.Ocarina chora uvas
esmagadas no sermão,
e esconde no coração
gotas vermelhas de chuvas.Um pombo pousa na taça
evangelho vivo de asas:
traz ao bico, verde salsa.A boa nova rascante
que me entra pela boca
doce beijo da amante.
Sonetos sobre Bicos
4 resultadosSoneto XXXX
Num seco ramo, nú de fruto e folha,
Ua queixosa rola geme e sente
Do casto ninho seu parceiro ausente,
E vê-lo a cada sombra se lhe antolha.Dali dece a ua fonte onde recolha
Algum alento, e porque não consente
A dor ver água clara, juntamente
A envolve c’os pés e o bico molha.Se ausência e amor sentida a rola tem,
Que nem de ausência, nem de amor conhece,
Em quem pesar nem sentimento cabe,Que farão em quem sente o que padece
Quem de seu mal conhece, e de seu bem
Temo que venha a não sentir, e acabe.
Chuva E Sol
Agrada à vista e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos venábulos radiantes…Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
– Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem nágua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da calçada…Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras…
Soneto V
Lançado ao pé de um monte, onde rebenta
Um rio, que ao mais alto vai correndo,
Um estrago de fogo estava vendo
Que quasi morto em cinzas se sustenta.Eis quando ua Ave chega, e tão isenta
As asas sobre as cinzas vem batendo,
Que acende o fogo e vai o monte ardendo;
Mas cadavez o rio se acrecenta.Despois de ter o mal e o dano certo,
Voando para mi, li-lhe no bico
“Em quanto vento houver vivirá a frágoa.”Desejei de a tomar vendo-a tão perto,
Estendo a mão, mas com as penas fico,
Fugiu, e eu caí no fogo e n’água.