Sonetos sobre Cabos de Vasco Mouzinho de Quebedo

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Sonetos de cabos de Vasco Mouzinho de Quebedo. Leia este e outros sonetos de Vasco Mouzinho de Quebedo em Poetris.

Soneto XXXVIII

Ao Reitor António de Mendonça.

Seguro estado da cidade e gente,
Quando aos que nele tem governo e mando,
Lho vai de tempo a tempo variando
E durar-lhe co’ a vida não consente.

Seguro, que se dana este presente
Melhor ao longe o está prognosticando,
Com este se foi Roma dilatando
E perdendo-o, perder-se inda hoje sente.

Tal foi o destas ínclitas Atenas,
Antes que por senhor vos alcançassem.
Mas hoje o sentem pelo bem que adoram,

Que como deste modo melhorassem
Suas cousas, a grandes de pequenas,
Chegando agora ao cabo, o fim lhe choram.

Soneto XXIIII

De ua esperança vã suspenso mouro,
Mas quando a fortes cabos mais me amarro,
Então vou através, então desgarro,
Como barca no Tejo, ou rio Douro.

Ah’ quem fora um pastor que seu tesouro
Tem no leve cortiço e tosco tarro,
E de ledo e contente os pés de barro
Julga consigo por cabeça de ouro.

Mas aquele que tem de ouro a cabeça
E pés que são de barro em cima sente,
Como não sintirá tanta desgraça.

Viva ufano, porém viva contente:
Quebra o barro, por mais que se endureça,
O imortal ouro mil idades passa.

Soneto VI

Qual naufragante mísero que cai
Da rota barca no soberbo pego,
E, lidando c’os braços sem sossego,
A cada onda receia que desmaie,

Tal, sem ter já lugar onde se espraie
Neste mar de meu mal, cansado e cego
Ando, aqui desfaleço, ali me anego,
E a cada encontro seu [a] alma me sai.

Em meio de mil barcas clamo, e brado:
“Me lancem por piedade um cabo forte!”,
Mas a ninguém magoa meu cuidado.

Ah, não queirais que vida tal se corte
Que se vida me dais, ganhais dobrado,
Livrando muitas vidas de ua morte.