Em uma Tarde de Outono
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as ĂĄguas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…Por que, belo navio, ao clarĂŁo das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?A ĂĄgua cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarĂŁo nascente do arrebol…
Sonetos sobre ClarÔes de Olavo Bilac
4 resultadosO IncĂȘndio De Roma
Raiva o incĂȘndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.E os templos, os museus, o CapitĂłlio erguido
Em mĂĄrmor frĂgio, o Foro, as erectas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incĂȘndio cingem, tudo esbroa-se partido.Longe, reverberando o clarĂŁo purpurino,
Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte.
ImpassĂvel, porĂ©m, no alto do Palatino,Nero, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e Ă©brio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.
Palavras
As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarÔes, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que nĂŁo tĂȘm vida, existĂȘncias que invento;Esplendor cedo morto, Ăąnsia breve, universos
De pĂł, que o sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as ĂĄguas imersos
-As palavras da fĂ© vivem num sĂł momento…Mas as palavras mĂĄs, as do Ăłdio e do despeito,
O “nĂŁo!” que desengana, o “nunca!” que alucina,
E as do aleive, em baldÔes, e as da mofa, em risadas,Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
ImĂłveis e imortais, como pedras geladas.
A Ronda Noturna
Noite cerrada, tormentosa, escura,
LĂĄ fora. Dormem em trevas o convento.
Queda imoto o arvoredo. NĂŁo fulgura
Uma estrela no torvo firmamento.Dentro é tudo mudez. Flébil murmura,
De espaço a espaço, entanto, a voz do vento:
E hĂĄ um rasgar de sudĂĄrios pela altura,
Passo de espectros pelo pavimento…Mas, de sĂșbito, os gonzos das pesadas
Portas rangem… Ecoa surdamente
Leve rumor de vozes abafadas.E, ao clarĂŁo de uma lĂąmpada tremente,
Do claustro sob as tĂĄcitas arcadas
Passa a ronda noturna, lentamente…